DONA SALICA JORGE: MOENDO O FUBÁ PEDAGÓGICO.
Dirceu Thomaz Rabelo
Por Dom Joaquim já passaram muitas professoras severas, bravas, de pavio curto e língua solta, mas Dona Salica reunia todos esses adjetivos e mais alguns outros, sem deixar de ser uma boa mestra.
Fui aluno dela só no Ginásio São Domingos e ela lecionou geografia para nós. Conhecia profundamente o assunto e sabia passar a matéria. Mas, cobrava com provas orais e escritas, difíceis e de múltiplas questões.
Ela nasceu em Conceição do Mato Dentro e recebeu o nome de Maria José Jorge e era filha de Teóphilo Jorge, irmão do coronel Pedro Jorge.
Salica exercia tanta influência e liderança sobre os “Jorge” de Dom Joaquim que todos pensavam que ela era irmã deles; mas, não! Era prima.
Só para nos colocarmos dentro da questão: o coronel Pedro Jorge era casado com Dona Nicoleta, filha de um grande fazendeiro, Chico Ferreira, que tinha fazendas espalhadas por cinco municípios da região, de Santo Antônio do Itambé até o Bagageiro, divisa de Dom Joaquim com Senhora do Porto.
Outras filhas de Chico Ferreira se casaram por aqui mesmo: Sinhazinha se casou com Quinca Elias; Nicolina também, mas não conseguimos descobrir o nome de seu marido, mas, de uma filha: Dona Naná de Beni. E nas nossas andanças e “assuntanças” de historiador descobrimos que a primeira esposa do senhor Inhozinho Ponte Nova também era filha do velho fazendeiro Chico Ferreira.
Voltando ao coronel Pedro Jorge eram seus filhos: Nelson, David, Hermógenes (Ferreira), Geraldo, Francisco, José, Iolanda, Elza, Maria, Zélia, Celuta (Irmã de Caridade), Nicoleta e Clotilde. Treze filhos!
Dentro da família Jorge corre uma história de que um bandeirante (falam em Fernão Dias Paes Leme – 1608/1681-) tinha uma família em São Paulo, e em suas viagens demoradas pelo interior das Minas Gerais até a Bahia, constituiu outra família numa localidade próxima do Serro. Aos seus descendentes ele deu o sobrenome inventado de “Jorge”.
Mas, Salica, entre os Jorge era chamada para tudo! Para resolver questões familiares, para dar o veredicto de qual seria o modelo do vestido de casamento das “meninas”, questões de partilhas de terra, coisas que envolviam dinheiro, sentimento, possíveis separações, tudo!
E quando ela chegava à escola, aquela líder respeitada soltava os bichos com aqueles vagabundos que queriam perturbar sua aula ou que se atreviam a enfrentá-la. Seus cabelos muito brancos, seus proeminentes dentes pontiagudos, com pequenas garras da prótese dentária à mostra e a voz esganiçada sobressaiam-se e encobria sua pequena estatura, própria dos Jorge.
Para nós, meninos mais pacatos e medrosos, D. Salica passava uma imagem forte, disciplinadora. Para os moleques metidos a bravos e que ela domava no tapa, numa época em que pedagogia era coisa de francês pederasta, Salica era sinônimo de “mulher macho de Conceição que veio tentar colocar freio nos potros de Dom Joaquim”, e ponto final. Ela, simplesmente, ignorava as cartilhas pedagógicas.
Aliás, quando ela via alguma aluna muito assanhada ou com as pernas abertas, não media palavras e ia logo dizendo:
- Você está parecendo moça de Conceição… Tudo de fuzil (fusível) queimado!
Que ela foi uma educadora valente, valorosa, isso ela foi, mas, os alunos mais corajosos e bravos quando queriam enfrentá-la, chamavam-na de Salica Fubá, por causa de seus cabelos brancos. Para ela, isso era como se abanassem uma capa vermelha diante de um touro, numa arena espanhola… Ela se transfigurava, perdia as estribeiras e saia atropelando o “maldito”…
À D. Salica e às saudosas mestras que já partiram, nossa homenagem “in memoriam”.





