Publicado por: Dirceu Rabelo | 05/02/2010

Aconteceu em Dom Joaquim. Eu juro!

ACONTECEU EM DOM JOAQUIM. EU JURO!

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Dirceu Thomaz Rabelo

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Um pobre coitado,   lá das bandas do São João de baixo morreu aqui no hospital de Dom Joaquim lá pelos anos 1980. Até aí, tudo bem. Ele tava mesmo bastante perrengado, quase só pele e osso. Se tivesse morrido em Belo Horizonte ou outra cidade grande, seu corpo ficaria alguns meses no IML e depois iria servir de estudos ao ser dissecado nas escolas de medicina, até ser enterrado todo remendado, como indigente, isto é, se sobrasse alguma coisa do envoltório carnal dele.

 Mas, como a gente daqui do interior ainda tem um pouco de compaixão, uma boa alma resolveu mandar fazer o caixão para dar ao finado um enterro decente. Fez-se o caixão e o carpinteiro ainda reclamou que a madeira estava meio verde e pesada, difícil de ser trabalhada.

Caixão pronto foi levado para o necrotério do hospital e colocado em cima daqueles cavaletes.

Nesse dia o hospital estava meio tumultuado, porque tinha lá um pessoal de “fora” fazendo uma fiscalização sanitária e um dos problemas, era exatamente a proibição do tal necrotério ligado fisicamente ao hospital.

Bom, mas aí, foi marcada a hora do enterro e as beatas começaram a chegar para acompanhar o último passeio do falecido. Aliás, o enterro deveria ser feito às pressas, porque o “de cujus” já tinha batido as botas há muito tempo e, além disso, o calor tava de lascar e nuvens pesadas já despontavam no horizonte, prenunciando uma tempestade iminente.

 Seis homens dos mais fortes pegaram as alças do caixão e saíram em direção ao cemitério. E não faltaram comentários tipo, “o danado era franzino, mas pesado feito chumbo”.

Um velho e conhecido beato dom-joaquinense puxou o “rosário” e iniciou-se o terço, respondido em voz alta pelos poucos acompanhantes, as mesmas carpideiras de sempre e pelos políticos locais chorosos, à caça de votos.

Quando o enterro chegou já próximo da igreja, onde o desencarnado receberia o alvará de licença de entrada no céu, viu-se e ouviu-se um menino correndo do lado do hospital, gritando feito maluco e acenando para que o pequeno séquito parasse. Parou o enterro, parou a reza do terço e o esbaforido moleque falou arfante: Gente, o caixão tá vazio! O defunto ficou lá no necrotério do hospital! Ele tá na outra sala escondido.

Era o recado urgente da dona encarregada de fazer a limpeza do necrotério, que viu o enterro sair, mas encontrou o defuntão todo fistola*, com as mãos cruzadas sobre o peito, em cima de uma mesa, numa sala ao lado.

Aberto o caixão, constatou-se a verdade. Nada do peste do defunto!

Não teve mais terço, nem carpideira chorando de mentirinha e quase não teve enterro do pobre coitado, tamanha a “risaiada” que o povo aprontou com o caixão vazio nas mãos e a zombaria de alguns sacanas que tomavam umas e outras num bar próximo pra cima dos acompanhantes, antes compenetrados. Se o defunto tivesse um mínimo de senso de humor, deveria também estar rindo em espírito, do tétrico filme “Esqueceram de Mim”: The last part.

 *Fistola – vem de fístula= mau caráter, zombador, gozador.

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Responses

  1. Caro Dirceu, conheci seu blog hoje em meus passeios intenéticos em busca de coisas interessantes (não apenas toda aquela besteirada que inunda blogs, sites e portais) e não tem nem 5 minutos que fuço tudo e seu endereço eletronico ja esta nos meus favoritos, com certeza terei momentos agradáveis por aqui.
    Parabéns pelo causo, e se ocê assunto que assim sucedeu eu credito no ce.rs
    Abraços e muito sucesso e paz.

  2. Que coisa boa, caro Paulinho (olha só a intimidade!)! Você já colocou nosso blog entre os seus favoritos? É realmente, de verdade, muito bom saber disso caro amigo. A gente vai escrevendo as coisas por aqui e nem percebe que está agradando as pessoas do lado de lá. O que falta é isso que você fez: fazer um comentário e dizer do que achou. Eu, faço o máximo para agradar os leitores, pois, embora o blog não me dê nada financeiramente, ele me proporciona alegrias como esta de receber palavras elogiosas de alguém que tenho certeza, é um leitor assíduo de tudo que vem na reta.
    Quanto ao causo, aconteceu, só que eu inventei umas coisinhas poucas, pra modi sigurá vancês na leitiura, uai!
    Abraço fraternal, caro amigo. E se der, vote em nosso blog, clicando aí neste selo dourado do TOPBLOG 2012.


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