Publicado por: Dirceu Rabelo | 08/04/2010

A CPI DO PALHAÇO

 

 A CPI DO PALHAÇO

   Dirceu Rabelo

O Circo do palhaço “Mosquito” acabara de deixar Dom Joaquim, com destino a Guanhães e nós, crianças, já sabíamos todos os dramalhões e cenas cômicas de cor. Afinal, fazíamos pequenos serviços para o pessoal da companhia e com isso, tínhamos direito a entradas gratuitas. Outros, entravam por debaixo da lona mesmo. O negócio era aprender tudo do circo, para montarmos nossa própria companhia, quando esse fosse embora.

De uma rápida conversa ao pé do cruzeiro, em frente à igreja velha, resolvemos montar o tal circo nos fundos do quintal de Zé Pires. Encabeçaria o elenco seus filhos Reinaldo, Zezinho e Ronaldo e entrando como coadjuvantes, José Agnaldo, eu e algumas meninas, nossas colegas do recém fundado Ginásio São Domingos, hoje, simpáticas vovós.

Casa cheia todas as noites. O circo cresceu tanto que os tapumes ou lonas de fora que fazíamos com pedaços de caixas de papelão, angariados nas lojas dos “Teixeiras” e dos “Reis”, foram substituídos pelos lençóis e colchas de dona Lourdes. Ela, claro, não gostou da idéia de ceder suas alvas e cheirosas roupas de cama, para outros fins que não fosse enfeitar as camas do casarão dos Pires, mas deixou-nos usá-las pelo esforço que fazíamos em representar para uma platéia cada vez mais numerosa.

A bilheteria que começou na escada do sobrado passou para o portão, ao lado da Casa Paroquial, tamanha a afluência de público.

Com o sucesso de nosso circo, outros proliferaram pela cidade. Um foi criado pelos filhos de Benedito da Ponte e outro, pela prole masculina de Zé de Sá Rosa. No Cafezeiro também apareceu um que morreu no nascedouro por falta de público. Também, pudera!

Em nosso circo, as funções eram bem definidas: eu, o palhaço; Zé Agnaldo, o equilibrista; Reinaldo Pires, o trapezista; Zezinho, o apresentador, e por aí, ia o “grande elenco”.

Como os espetáculos passaram a ser diários, o trabalho de “produção” aumentou muito e Ronaldo e eu fazíamos as compras de bananas e pães, para uma cena minha de palhaço; fubá, para as cenas da peça humorística “Maria Angu”; groselha, para encher os copos de “vinho” que Zé Agnaldo equilibrava no queixo, para delírio do respeitável público; vaselina, para passar no corpo ainda “sarado” do jovem trapezista Reinaldo e outras compras decididas no dia. Recebíamos, Ronaldo e eu, uma verba para essas compras diárias, por um cálculo feito na hora, que saia direto de um orçamento pré-estabelecido para isso. E íamos às compras.

Nesse meio tempo, Jadir, do circo de Benedito da Ponte tentou me contratar, pois Ladir, o palhaço deles era meio fraco. Fui chamado ao circo deles para uma conversa, mas o que me ofereceram de cachê, não era lá grandes coisas e eu acabei não aceitando. Só que lá estava o Paulinho, contra-regra do nosso circo. O contra-regra, para quem não sabe, é aquele cara que entra no picadeiro depois do final das cenas, para retirar os objetos e colocar outros, para as cenas seguintes. Ele, Paulinho, era louco para ser artista como nós, mas não levava jeito para a coisa. Pensando em tirar proveito da situação, ele correu para o nosso circo, antes de saber da minha resposta negativa e contou para os “empresários” Reinaldo e Zezinho que eu estava mudando para o circo rival. Quando eu cheguei à tarde para os ensaios no circo, fui chamado para uma conversa e o Paulinho confirmou na minha presença, a minha possível debandada.

Bem, no bate boca que se seguiu, o pobre do Paulinho perdeu também o emprego de contra-regra e eu permaneci no meu posto de palhaço oficial do circo. No entanto, no final da discussão, ele ainda deixou escapar que eu estava ficando com o troco das compras. Pra quê, distintos e incorruptíveis leitores? A minha casa caiu!!!

Realmente, nunca do dinheirinho que me era entregue para fazer as compras, sobrava alguma coisa. Do que poderia restar, eu comprava cigarros picados, um guaraná Gato Preto, picolés, etc., e Ronaldo também ganhava alguma coisa pra ficar de bico fechado. Suborno, claro!

Reinaldo e Zezinho que já desconfiavam de mim, tiveram certeza e me chamaram para uma conversa ainda mais reservada. Embora, eu estivesse desconfiado de que eles também estavam surrupiando a bilheteria, não podia dar o grito. Antes, eles só fumavam mata-ratos como o Saratoga, e comprados a unidade; agora, andavam ostentando maços inteiros de Hollywood com filtro. Tá bem que eu não tinha provas concretas e eles tinham. Tremi na base! Digamos que eles teriam ali, naquele momento, aberto uma CPI para que fosse apurado o desvio de dinheiro do circo. Foi um inquérito rápido e transparente feito lama, pois não tive saída. Aliás, nem defesa, só dois inquisidores. Confessei que gastava mesmo o troco que sobrava das compras com guloseimas.

Como Ronaldo era meu cúmplice, o irmão mais velho deles namorava a minha irmã, e a negociata estava toda em família, a coisa ficou por alí mesmo, mas minha reputação ficou mais suja que poleiro de pato no meio circense de Dom Joaquim. O pessoal do circo de Benedito da Ponte desistiu de mim. Os “empresários” do meu circo tiraram-me a função de chefe de compras e eu amarguei alí, no circo de Zé Pires, um morno final de carreira palhaçal. Aliás, triste fim… Palhaço e corrupto!

Mas, pensando bem, foi um final de carreira bem mais digno do que de qualquer um desses adultos corruptos e seus asseclas, que nós elegemos para que administrem o dinheiro público e não o fazem. Eu cresci e aprendi a ser honesto, e eles não! É só vislumbrarem uma nova eleição, que lá estão eles com a seriedade mais cara de pau do mundo, a nos pedir votos, fazendo-nos de palhaços. 

.

(Crônica publicada  no jornal “A FOLHETA” em 1996)

 

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Responses

  1. Pai, adoramos o texto e Dinda e Papai ficaram comentando o tempo inteiro depois. Dinda falou inclusive que pagava para ver as apresentações. darei um jeito de mostrar para tio Zezinho, Tio Rei e tio Ronaldo.

  2. Não deixe de mostrar para os três colegas de circo. Com certeza eles vão ter boas recordações daquela época. Acho que das minhas crônicas, esta seja a que eu mais goste. Beijão!

  3. Pai, mandei a Isabela (Filha de Tio Zezinho) mostrar para ele. Veja a resposta:

    Oi prima linda….
    Já mostrei o papai, ele achou super legal!!! Remember… rsrs
    Pediu pra eu imprimir, pra mostrar pra todo mundo.
    Aparece…. saudade tb!!!
    Beijos em todos…

  4. Que bom! Estas crônicas que eu escrevo tem este objetivo: resgatar a nossa infância que é um pouco da história de Dom Joaquim e de sua gente. Quantas pessoas de nossa convivência eu citei ali, que já não se encontram mais aqui na terra conosco, como D. Lourdes, Sr. José Pires, Benedito da Ponte, Jadir, Ladir e outros? O cronista é um historiador, na medida em que narra os fatos que aconteceram na comunidade e os deixa para a posteridade.

  5. Você é o meu orgulho!

  6. Não faça isso comigo que eu não demoro a explodir de tanto que você enche a minha bola.


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