Publicado por: Dirceu Rabelo | 06/07/2010

Amor de Pachico

 

 

 Amor de Pachico

 Dirceu Rabelo

Naquele sábado, Pachico e Zé de Ambrósio estavam com a corda toda. Aliás, Pachico com uma viola de doze cordas e o Zé com um violão de seis. Tocavam num buteco copo sujo, enquanto alguns homens jogavam búzios e outros, truco. A fonção foi até tarde e eles beberam muita pinga, paga pelos jogadores. Chegou um momento que o Zé não aguentou mais e pediu pinico; botou o violão no saco e tentou ir pra casa aos trancos e barrancos. Na subida da Rua Nova, perto de um bambuzeiro, parou para descarregar a bexiga, mas escornou por ali mesmo. Só que se esqueceu de guardar os “badalos”.

Pachico, embora inseparável do amigo Zé, ainda permaneceu lá no buteco até às cinco da manhã. Finda a farra, bebaço, o velho Pachico toma o caminho de casa. Ao passar pelo bambuzeiro, depara-se com o Zé, escornado e com as “capangas” de fora. Ele tenta acordar o amigo, sacode ele e nada do Zé acordar. Mesmo no seu porre homérico, pensa sensato: – Daqui a pouco vai começar a missa das seis e as beatas vão começar a descer a rua. Vou ter que guardar “os trem” do Zé, urgente, para o bem da moral do meu amigo. Pachico pega seu lenço e devagar, guarda as “matutagens” do amigo de farras e ainda abotoa um a um os botões de sua barguilha. Pronto! – pensou Pachico – Mas tonto como estou, não vou aguentar levá-lo até sua casa.

 O sino da matriz bateu, chamando os fiéis. Precisava tomar uma decisão urgente. E tomou! Ele sacou sua garrucha 38 da cintura, engatilhou, apontou para a cabeça do Zé e lascou fogo: Pow! Pow! Quando a poeira baixou, o Zé já de pé, apavorado, vendo o amigo com a arma ainda fumegante nas mãos, pergunta:

– Que foi Pachico? O que foi que eu fiz com você que eu não me lembro?

E Pachico responde, aos prantos:

– Nada! Você não me fez nada, pelo contrário, você é o meu melhor amigo e eu fiz de tudo para tirar você daí; como não consegui e para que não vissem você descomposto, eu preferi te matar, mas errei o alvo.

Hoje, aqui na cidade, quando se maltrata alguém por amor, diz-se que é AMOR DE PACHICO… Tem fundamento!

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