Publicado por: Dirceu Rabelo | 11/08/2010

Calçando as Sandálias da Fidelidade

ZÉ DE SÁ ROSA:

Calçando as sandálias da fidelidade.

Dirceu Thomaz Rabelo 

O surdo tilintar do martelo batendo num pedaço de couro úmido sobre uma grossa chapa de ferro, apoiada sobre as duas pernas, é a primeira referência que tenho de Zé de Sá Rosa, nascido José Maria Fidélis; “seu menor criado”, com certeza dirá sempre, com sua peculiar humildade.

Sapateiro, com seus bem vividos 72 anos de profissão, nunca se deteve só nos consertos. Também fabricava sapatos sob medida e encomenda, mas hoje, não vende mais suas excelentes sandálias de couro que também eram de fabricação própria. A idade já não permite mais a confecção, mas pequenos concertos ele ainda faz. Suas obras primas ganharam os mercados de Ferros, Conceição do Mato Dentro, Sabinópolis, Senhora do Porto, Guanhães e adjacências.

E foi com essa simples, mas honrada profissão que criou, no mais belo e sublime sentido desta palavra, duas maravilhosas famílias; Uma, de seu primeiro casamento com a saudosa D. Silvia, com quem teve 15 filhos “e todos encaminhados”, e em segundas núpcias, com Dona Zélia, cuja união gerou quatro filhos, sendo uma filha adotiva.

Leiloeiro maior de nossas festas embaralhava as palavras com a perícia de um locutor de jóquei. Vendia seu “peixe” por bom preço e com humor invejável, e ao mesmo tempo entretinha a platéia extasiada. Sempre foi um maestro na arte de leiloar. Chego a dizer que com seu carisma, buscava com o seu olhar arguto os “ricos” da platéia e deles arrancava, como um Robin Hood dom-joaquinense, aquele lance maior para os leilões beneficentes. Afinal, ele devia pensar naquela época: “Desse bolso aí, esmola para o santo, só sai desta maneira…”

Mas Zé de Sá Rosa foi muito, muito mais. Juiz de Paz por dois mandatos e Juiz substituto da Comarca de Dom Joaquim por seis anos. Embora tenha sido homem da lei, nunca usou seu cargo em proveito próprio. Jamais mandou cobrar das pessoas que levavam o calçado pronto, com meia-sola e engraxado e com a promessa de pagar no dia seguinte. Tinha inadimplente (mau pagador para os íntimos) que cortava caminho, mas não passava em sua rua, ali na encruzilhada do Lopes com o Cruzeiro. Mesmo assim ele não mandava cobrar. O freguês não pagava e ficava por isso mesmo. “Cuá! Deixa pra lá! Mais tem Deus pra dar do que o capeta pra tirar!”- pensava com seus botões.

Quando os meninos do primeiro casamento inventaram de montar um circo de touradas no fundo do quintal, para completo desespero de Dona Silvia, pela latumia que a meninada fazia, lá estava o pai extremoso a incentivá-los, pedindo cabrito emprestado, imprimindo ingressos, pintando cara de palhaço e cedendo lugar para o pequeno picadeiro, bem ao lado da horta de estimação da querida esposa. Nessas alturas, também D. Sílvia entrava na bagunça e fazia até beijo-quente para os meninos venderem e a casa simples se transformava num palácio de felicidades. “Seu” Zé é e continua sendo o pai que todo mundo queria ter.

A confecção do boi caracu e da Zabelê para as festas da cidade era sempre com ele mesmo. E o Judas então, ele fazia questão de fazer, encher de balas e amendoim, e o mais importante, criava o inventário do infeliz apóstolo que caiu na asneira de trair Jesus. E do seu inventário, sobrava até mesmo para as “autoridades” locais.

Compadre de meio Dom Joaquim, “Seu” Zé sempre cultuou a amizade sincera, o amor ao próximo e a fidelidade com todos. Aliás, Fidélis não poderia ser sobrenome mais que perfeito para quem foi, é e sempre continuará sendo fiel, em sua latinidade plena, ao seu semelhante.

Miremos neste exemplo que nos é dado no dia-a-dia por Zé de Sá Rosa e calcemos cabisbaixos e depressa, as sandálias da humildade, e da fidelidade também.                                                                    

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