Publicado por: Dirceu Rabelo | 25/08/2010

O Pequeno Médium de “Efeitos Especiais”

O Pequeno Médium de “Efeitos Especiais”

Dirceu Thomaz Rabelo

Mal entravam as férias escolares e já partíamos a cavalo para as fazendas de nossos tios. Ia sempre um primo mais velho nos levando, quase sempre o Lúcio, pois éramos muito novos; Itamar, Antônio Paulo, Luiz Mário e eu. O mais velho tinha uns 12 anos e eu, o mais novo, nove.  

A chegada na primeira fazenda, o Candonga, era sempre um deleite para nós e tudo ali mudava com nossa chegada. Os cachorros que só podiam ficar no terreiro, começavam a entrar na casa, principalmente na cozinha e Tio Antônio, com sua calma habitual, reclamava:

– É só vocês chegarem aqui, pra essa cachorrada tomar conta da fazenda.

E tia Assunção contemporizava com algum argumento que convencia o caro tio, e nós tomávamos conta do ambiente literalmente. Aliás, tia Assunção, mãe do primo Itamar – desencarnado muito novo, devido a um acidente de carro – fazia todas as nossas vontades e numa dessas, mandou fazer para nós um carro de bois em miniatura. Nós o atrelávamos aos pobres cabritos da fazenda, com pequenas cangas, e os bodes ficavam que era um berreiro só. Não estavam acostumados com a batalha. Noutra ocasião, a boa tia Assunção mandou o carpinteiro da fazenda fazer para nós, um carrinho de quatro rodas, com freios de arco de barril e boléia; tudo como nós queríamos.

A querida tia, com sua animação quase que juvenil, juntou certo dia seus filhos, empregados, sobrinhos e fomos todos a pé para a fazenda da Cachoeira, dos tios Zé Juca e Iaiá. Foi uma farra.  Nós, meninos, fomos “motorizados” empurrando nosso carrinho; cada um montava um pouco e depois empurrava um pouco. Da fazenda “Cachoeira” tenho as lembranças das pescarias memoráveis com a tia Iaiá, os banhos na bica do engenho de cana ou no moinho de fubá. E as escapadas para as matas vizinhas e os pomares? Eu não gostava de matar passarinhos nem de mantê-los na gaiola. Mas tinha quem gostava. Mas é passado! E as primas e primos queridos, os casos de assombração e os jogos e diversões no varandão?

Lembro-me de tudo e tenho saudades de cada momento vivido, mas vamos ao caso do médium de “efeitos especiais” que só durou um dia.

Naquela época, a fazenda velha foi demolida e uma nova fazenda estava sendo construída e a família morava provisoriamente no paiol. Este recebeu uma cozinha, e divisórias de tábuas que se transformaram em quartos, para receber a todos.

Nós crianças ficávamos a maior parte do tempo fora de casa brincando e só entrávamos para as refeições e para dormir. O carrinho de quatro rodas era a nossa brincadeira predileta. Um de cada vez subia o morro atrás do paiol, empurrando ou puxando o carrinho e descia embalado, freando aos poucos, para fazer a curva perto do córrego e aí sim, frear bruscamente, fazendo um cavalo de pau, para não cair na lama. Era um sucesso a brincadeira.

Quando chegou a minha vez, fiz tudo direitinho até me aproximar do córrego. Não tive forças para frear “tudo” e emburaquei o carrinho dentro da lama, atropelando dois leitões gordinhos que saíram guinchando assustados.

Pelas ameaças que recebi de longe, já deixei o carro novinho, todo sujo e atolado e tratei de dar no pé, para tomar um banho na bica d’água e lavar o short.

Quando voltei, de mansinho, cabreiro, o carrinho estava acabando de enxugar e eles já haviam decretado que:

Art. 1º – Você não vai mais andar no carrinho hoje.

§ Único – Revogam-se as disposições em contrário.

Dancei solenemente por minha imperícia na pista, mas resolvi contra-atacar imediatamente. Minha vingança seria terrível, pensei. Busquei ali ao lado, um mancal de engenhoca enferrujado, coloquei-o em minha frente e sentenciei (tudo de molecagem) com a voz cavernosa que já havia ouvido no Cine Estrela D’Alva, da Dona Naná:

-Aquele que descer primeiro no carrinho derrapará na curva e vai tombar com o carro. E não deu outra! Luiz Mário se esborrachou na poeira, sob o riso dos outros meninos. Ele, Luiz Mário me fuzilou com um olhar de ódio, pela profecia.

Segunda sentença do “mago” aqui:

– Agora, Itamar irá descer e terá uma roda do carrinho quebrada antes de chegar ao final. E eu levantava o ferro velho com as duas mãos, como oferenda, para a “macumba” surtir efeito. E o “trem” aconteceu mesmo e os meninos já começaram a ficar temerosos e eu cheio de moral, mas sem entender o porquê do feitiço.

Quando chegou a vez de Antônio Paulo, meu irmão, depois que eles colocaram a roda reserva no carro, eu dei meu veredicto:

– Você terá o freio partido na curva e vai comer poeira também, Tunico de João Paulo.

Aí, caros leitores, macumbeiros, espíritas, evangélicos, católicos, ateus, o clima pesou. Eu, de um lado, querendo que o fato se consumasse para que minha “vidência” ou pressentimento se confirmasse; meu irmão lá, sentado no carrinho, num cagaço de dar dó. Quando ele começou a descer que o carrinho pegou embalo, ele puxou o freio de uma só vez e esse se partiu no meio e o carro capotou feio. Ele já levantou do chão, limpando a poeira e veio pra cima do terrível médium aqui e lascou-me um tapa no pé do ouvido. Fim de carreira do terrível médium. Abri o berreiro.

Fim da história: Não sei, como espírita, como isso se deu, mas sei que tive que passar por uma espécie de tribunal de inquisição formado por minhas tias. Minha pena: rezar 30 “Pai Nossos” e 30 “Ave Marias” de joelhos, “pra tirar o capeta do corpo”. Mas todo mundo ficou com medo de mim por uns dias. Ah! Isso ficou.   

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Responses

  1. Paaaaaaaaaaiiiiiiii,,, como vc podia ter desejado que Tio Tóia caisse do carrinho?? Você é mto mallllll!

    hahahahahaha

  2. Esta foi minha primeira experiência espírita e eu não sabia. Também, imagine a espécie de espírito que estava alí do meu lado me ajudando?


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