Publicado por: Dirceu Rabelo | 27/08/2010

Minha Mariposa do 32

Minha Mariposa do 32

 Dirceu Rabelo

Em nossa juventude, esse endereço da Rua Curitiba, na capital mineira era a salvação da lavoura para os estudantes pobres chegados do interior, sem grana para frequentar boates e até sem roupas adequadas para arranjar namoradas. Ficava próximo da Guaicurus, onde a noite belorizontina fervilhava para os menos afortunados.  Ali, o estresse – palavra ainda inexistente naquela época – era aliviado por quantias módicas, bem ao gosto do freguês. Este estava também sujeito a uma boa doença venérea, daí a poucos dias, já que camisinha ainda era ficção.

Foi numa dessas baladas, com a turma de Dom Joaquim que morava na república da Rua Guarani que conheci ali uma jovem morena, bem índia, muito bonita e acanhada, recém chegada da Bahia e de nome Sandra; com certeza “nome de guerra”. Como eu saquei que ela estava omitindo o seu verdadeiro nome, apresentei-me também como Roberto e entramos para o quarto dela. Lembro-me do forte cheiro de incenso e de uma imagem de Iemanjá na cabeceira da cama em seu quarto; coisa de baiana mesmo. Lá fora, uma vitrola tocava uma música de Paulo Sérgio, Ultima Canção, no último volume: “Esta é a última canção que eu faço pra você. Já cansei de viver iludido, só pensando em você.”

Fiquei tão impressionado com sua singela beleza e com sua sensibilidade que ficamos ali, conversando sobre família, sobre o amor, sexo, paixão e banalidades. Notei que ela também estava necessitando de alguém que chegasse e lhe falasse algo e não “fizesse” algo somente. Ela saiu do quarto, foi lá fora e daí a pouco voltou e trancou a porta. Ascendi um cigarro e ela me explicou que foi pagar a diária adiantada do quarto para o gerente do hotel. Por que agora? Perguntei. Para que ninguém enchesse a paciência dela, por estar demorando com um freguês somente. Fazendo isso, ela poderia ficar com quem quisesse, durante o tempo que quisesse; normas da casa. Ficamos juntos até as três horas da manhã e ela se despediu de mim com um beijo demorado, dizendo-me:

– Estou com medo de estar me apaixonando por você… (Já?)

Eu me calei, embora também quisesse dizer o mesmo. Mas para uma prostituta? Pensei. Eu tinha somente vinte anos e era uma criança grande. Ela devia ter dezoito anos; no máximo dezenove.

Ela nunca recebeu meu dinheiro e eu achava aquilo temeroso, embora a turma achasse o máximo. Eu sempre levava para ela, perfumes baratos, chocolates e caixas de sabonetes, desses mais caros; ela adorava.  Todos me viam como o galã da zona. Eu temia que ela se “achasse” e aprontasse pra cima de mim quando eu tivesse alguma namorada firme. E ela chegou a me ameaçar:

– Nem pense em sair com outra mulher!

Só sei que ela descobriu por conta própria que eu estudava no Colégio Comercial “Professor Humberto Rosas”, na Floresta e sempre me esperava lá. Depois, descobriu que eu morava na Rua Muriaé, ali perto da Lagoinha mesmo e sempre dava uma quebra de asas por lá. Numa dessas, ela chegou lá procurando por “Roberto” e papai estava alí nos visitando.  A turma já sabia que era eu e falou com ela que eu tinha saído para procurá-la. Ela voltou para o hotel. Depois que ela foi embora, papai perguntou:

– Que Roberto é esse da turma, que eu não conheço?

Aí, o pessoal caiu na gargalhada, dizendo que era eu. No outro dia, ele veio me dar conselhos para não me meter com mulher de zona e coisa e tal. Eu perguntei pra ele: – O senhor viu a “moça”?

Ele respondeu: – Não!

Eu falei: – Um taco de mulher e que não fica comigo por dinheiro!

-Ué! Pior ainda, mas você é quem sabe. Respondeu ele. E ficou por isso mesmo.

Final de ano, provas e mais provas no “Humberto Rosas” e como naquela época, ela quase todos os dias aparecia por lá para descermos juntos da Floresta para o centro, e de repente desapareceu, fui procurá-la. Há três dias ela não aparecia.

Cheguei no “32” com uma chuva miúda caindo e subi direto ao seu quarto, no segundo andar. Porta fechada; talvez algum freguês. Fiquei esperando encostado na parede bem ao lado da sua porta. Uma colega dela, da frente, dispensou um freguês e quando me viu, cumprimentou-me friamente e fechou a porta. Fiquei preocupado. Bati na porta. Ninguém atendeu. Desci até a portaria e fui direto ao porteiro que já me conhecia e perguntei por ela, Sandra. Ele me encarou triste e perguntou:

– Você não viu os jornais de antes de ontem não?

– Não, por quê? Respondi perguntando, com um frio anavalhando meu coração.

– Briga de dois policiais; um da civil e outro da militar. Ela estava entre os dois, de pé, aí na porta e levou um tiro no peito. Morreu aí mesmo, sem tempo de ser socorrida.

Saí dali como se tivesse levado um soco direto no fígado; minha boca ficou amarga imediatamente. A chuva molhava meu rosto, enquanto eu subia a Avenida do Contorno rumo a Muriaé, sentindo o perfume de Sandra no ar e ouvindo ao longe Paulo Sérgio, com suas músicas de profunda dor de perda. Parei num bar perto da Paquequer e pedi um copo de conhaque de segunda categoria, que traguei num só gole. Na banca ao lado, num “Diário da Tarde” já roto, lá estava a foto de Sandra, numa reprodução de sua carteira de identidade. Linda! Chorei alí, diante de sua foto.

O amor floresceu e murchou dentro de meu coração em muito pouco tempo, assim como a misteriosa flor do deserto. Nem sei se dentro dele teve lugar para mais algum amor tão verdadeiro…    

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Responses

  1. Roberto, a riqueza de detalhes do seu conto confere veracidades impar aos fatos apresentados. Mais uma vez, um grade prazer ler “essas bobagens que o menino do Joao Paulo escreve”. Leve e gostoso de ler. Grande abraço.

  2. Joãozinho, caro amigo e hermano! É bom saber que estamos escrevendo e postando nossas “bobagens”, na certeza de que do lado de lá (ou daí), estão pessoas sensíveis que sentem na alma, aquilo que queremos passar com nossos poemas e nossas crônicas. Às vezes são pesados e doloridos; outras vezes, alegres e moleques. Faz parte do show da vida. Só tenho a agradecer a você e a todos que nos honram com a leitura.

  3. eu nao consigo ir para a cama sem antes dar uma passada por aqui….
    realmente e algo muito gostoso de se ler…..

  4. Pai,

    Então quer dizer que minha mãe quase foi a Sandra? rs.

    Brincadeiras a parte, como a escrita é um dom! Gostaria de ser assim como você, escrever com a alma.

    Tenho orgulho do que faz….

    Mari

  5. Angelo querido! Não posso negar que esta esfregadinha no meu ego, me faz caprichar mais e mais naquilo que vou escrever para vocês, leitores do meu blog. Ainda mais sabendo que uma pessoa querida, assim como você, estando aí nos Estados Unidos, mas tão perto, que pode ler instantaneamente aquilo que escrevo aqui em Dom Joaquim, interior do Brasil. Obrigado pela força!

  6. Marilia, minha filhota. Escrever, com certeza é um dom de Deus. Cabe a nós, trabalhar este dom com humildade, principalmente lendo muito e estudando também muito. É o que faço. Sobre a crônica “Minha Mariposa do 32”, tem muita coisa real, mas dei nela umas pinceladas de dramaticidade para induzir o leitor ao “doer da alma”. Coisa de poeta sem o que fazer em casa à noite, tipo seu paizão assim… Quanto a você, se não escreve bem, encanta com sua beleza física e interior e seu amor aos animais e à natureza. A biologia está ganhando uma grande profissional. Beijão.

  7. Mano Di,que linda história de amor. Faz-me recordar os tempos dos amores impossíveis, marcados pela discriminação e preconceito.Beijos.

  8. Esta história é de conhecimento de muitos que conviveram comigo em BH. Só que agora posso conta-la com todos os is e seus pingos. È a relidade nua e crua que me veio à mente na terça-feira, quando Romani e nós de sua assessoria voltávamos de Congonhas do Norte e passamos perto da “Casa das Meninas”, depois de São José da Ilha. Quando cheguei em casa, nem deu tempo de tomar banho e a crônica foi despejada no computador. Beijão, querida, pela força de sempre.

  9. Você conseguiu me levar a um passado q faz parte integrante de nossas vidas. Aquele local era realmente onde conseguíamos a tirar um pouco do stress e nos divertir muito. Adorei realmente, pois me lembro d tudo nos mínimos detalhes! Q pena q época com aquela nunca mais teremos! A Guaicurus era a segunda nossa casa!

  10. Realmente, nossa vida era tão simples como a daquelas “meninas” da Guaicurus, do 32, da Paquequer e por isso a gente se identificasse tanto com o ambiente e com elas. Para mim não é tão importante o passado como lembrança, mas como história que tem que ser contada. Vão-se as pessoas, ficam os fatos, as memórias delas. Grande abraço, mano!


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