Publicado por: Dirceu Rabelo | 02/09/2010

Bravos rapazes dom-joaquinenses!

Bravos rapazes dom-joaquinenses!

Dirceu Thomaz Rabelo

 

Às cinco horas da manhã em ponto, o relógio nos despertou e Tóia tentou desarmar o alarme para não acordar a família da dona da pensão onde morávamos. Mas no escuro, o relógio caiu no chão e rodopiou para debaixo da cama e continuou tocando até acabar a corda. Quando conseguimos acender a luz do pequeno quarto da Rua Célio de Castro, na Floresta, começamos a rir da bagunça do início do meu primeiro dia de trabalho na Brasilit, na Cidade Industrial de Contagem. Era fevereiro de 1965.  

Lá fora, um pé d’água caía desde a tarde do dia anterior e nos apressamos para descer para a Praça Rui Barbosa, ou Praça da Estação, como é mais conhecida, onde pegaríamos o ônibus que nos levaria para o trabalho. Meu irmão já estava lá na Brasilit há um ano, levado pelo primo Salvinho. Desta feita, ele me dava a mão também. Aliás, devo dar uma pausa como cronista e deixar falar o historiador (nunca sei quando é um e quando é o outro), para prestar uma homenagem ao falecido Sálvio Lúcio Vieira que levou para a Brasilit outros dom-joaquinenses, como os primos Gilberto (Veio) e seu irmão Zé Maria (Xará).

Como era o primeiro dia naquela pensão, descemos por uma rua errada, numa escuridão terrível e tínhamos só um pequeno guarda-chuva para os dois e ao chegarmos à linha do trem, este estava fazendo manobras. Esperamos um pouco e como o trem não parava com o seu vai e vem, resolvemos subir nele e saltar do outro lado. O maior perigo! Quando conseguimos chegar à Praça da Estação, estávamos completamente molhados, com os pés encharcados, mas um bar salvador estava aberto debaixo do antigo e imponente Hotel Itatiaia, do lado da Avenida Santos Dumont, onde tomamos um reconfortante café com leite quente e comemos um pão dormido com manteiga. Daí a pouco entramos no ônibus que nos levaria para a Brasilit. Aliás, chamar aquilo de ônibus era muito elogio para o senhor Moisés, dono e motorista daquela geringonça. E “aquilo” saia catando gente pelo centro de BH. Subia toda a Santos Dumont, depois Avenida Paraná, Praça Raul Soares, Augusto de Lima e seguia pelo Prado, Calafate, – onde os primos Salvinho e Marinho entravam – Gameleira, onde entrava o franzino Piriá, e depois subia a Amazonas direto até a Cidade Industrial, aonde a “jardineira” chegava abarrotada. De vez em quando ela enguiçava na rua e tinha que ser empurrada e “seu” Moisés só rindo, na dele, nunca se estressava. O danado deve estar vivo até hoje, com uns 125 anos e nem um fio de cabelo branco.  

Ganhávamos um salário mínimo por mês e tínhamos direito ao café da manhã, um almoço maravilhoso e um café da tarde. Meu irmão arranjou um namoro com uma das cozinheiras e com isso, tínhamos uma marmita para levarmos para a pensão na volta pra casa. Compramos duas colheres e partíamos a bóia antes de irmos para a escola de contabilidade. Não sei como é que conseguíamos, mas com o salário mínimo vivíamos bem; bem mal! Numa pindaíba de fazer dó.

Engraçado é que na Brasilit as coisas foram se encaixando, e eu já não peguei no pesado (que, aliás, nunca foi o meu forte). O chefe da oficina mecânica, Dr. Klauss Beckmann precisava de um auxiliar de escritório e me requisitou, e eu fui trabalhar com ele de muito bom grado. Meu irmão e outros de Dom Joaquim trabalhavam com Iros Gracie (da família dos grandes lutadores de jiu-jitsu), na seção de controle de qualidade, quebrando telhas, fazendo testes, etc. Mas, que nós aspiramos muito amianto, ah, isso aspiramos!

Zandona, tio de Helio Abraão, era o “cara” do setor de transportes da Brasilit. Ele já era um senhor de idade, mas todas as entregas de telhas e caixas d’água na capital e região eram com ele mesmo. Ele, e seu único caminhãozinho. Conhecendo Zandona, conhecemos Hélio Abraão e o Cine São José, pertencente à família Abraão, e daí nos tornamos os reis do Calafate, que culminou com a ida de Tio Walney e família para o bairro, onde já moravam o Tenente Leite com Hemengarda e filhos.

Resolvi contar essa épica saída de nossa geração de Dom Joaquim para Belo Horizonte, porque naquela época, a maior preocupação de nossos pais e nossa também, era dar continuidade aos estudos. As duas ou três gerações de dom-joaquinenses que nos precederam preocuparam-se com a sobrevivência; infelizmente, naquela época,  era a lei! Iam para o Rio de Janeiro, e na sua maioria, para trabalhar com Heli de Clóvis na COFAP, ou em restaurantes, como o saudoso Tibúrcio Maia e seu cunhado Nilo Fróis. Estes últimos retornaram e foram os pioneiros na montagem do primeiro restaurante e pastelaria de Dom Joaquim. E eu estava lá com eles, como aprendiz.  Os outros voltavam a passeio, com seus sapatos de duas cores, calças brancas e camisas coloridas e alguma malandragem, e ainda puxando nos esses: voceix, noix, talveix…

Quase o mesmo aconteceu com alguns poucos rapazes e moças das gerações mais recentes, que optaram pelo “enriquecimento” mais rápido nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e alguns países da Europa.

No nosso caso foi uma vida dura, sofrida, para não dizer triste. Mas acho que valeu. Valeu sim!

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Responses

  1. me encanto com tuudo isto!!!
    e uma real viagem ao passado que nao vivi!!!
    minha cabeca voou tanto que estou com medo dela ir para ai junto de todo mundo!!!!
    adoro suas cronicas…..
    desta ate papai e tio toninho rodou nela….
    akakakakakkaak

  2. Angelo, meu querido. Por Deus que quando fiz essa crônica e que cheguei na parte em que falo do Toninho Zandona, de seu pai e da família Abraão, só me vinha na cabeça a sua imagem. Naquela época, possivelmente você estava no Plano Espiritual já se preparando para a reencarnação, segundo a Doutrina Espírita. E como eu disse ali, eu não sei nesse tipo de conto, quando sou cronista e quando sou historiador, pois os fatos históricos de uma cidade vem à tona e se tornam públicos, daí eles contam a história daquele povo e preservam a sua cultura. É esta uma de minhas missões neste nosso blog. Para que virem um livro é um pulo. O futuro dirá! Grande abraço, querido.


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