Publicado por: Dirceu Rabelo | 10/09/2010

Senhor da Agonia

Senhor da Agonia

Dirceu Thomaz Rabelo

Outubro de 1958. Sol rachando, tempo enfumaçado pelas queimadas, para preparação das terras para plantio. Uma acauã canta seu agouro num piado lúgubre, lá pelas bandas do Gaia. Zé Guedes desce a Rua de Baixo com seis vassouras de taquaruçu e as entrega na venda de Zé Camilo. Ali mesmo toma um gole de pinga e depois mais outro. E começa a discurseira:

– Hoje, 15 de outubro de 1958, dia de São Cipriano, A Igreja Católica Apostólica Romana relembra a morte do Papa Pio V… Dr. Ary Ascenção de Oliveira, Prefeito de Dom Joaquim! Juscelino Kubs… Kubs… Kubscheca de Oliveira, Presidente do Brasil!

Nisso, o Geraldo de Valu grita detrás da porta do bar de Barriado:

– Cala a boca tangará!

Zé Guedes responde no mesmo fôlego, reconhecendo a voz de Geraldo:

– Realmente, Geraldo do Senhor Valu, eu tenho uma perna mais curta do que a outra. Mas, permita Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo que isto nunca te aconteça.

Domingos Cabeça afina a voz e grita do outro lado da rua:

– Ô Guidinho ca-cha-cei-ro!

Aí Zé Guedes fica irritado, ou faz de conta que se irrita. Equilibra-se somente em uma das pernas e risca o cabo de vassoura pelo chão de terra, levantando poeira. Em tom ameaçador, empina o corpo franzino, dá uma raspada na garganta e retruca:

– Não sou cachaceiro não, Domingos! Cachaceiro é Nico Mucinha, Acrísio, João Simões e senhor Zé Juca… Eu sou um simples consumidor. E dito isso entoou “A treze de maio, na Cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria.  Ave, Ave, Ave Maria…”

Nesse momento passa cruzando a rua, uma pequena procissão vinda da capelinha do Alto do Cruzeiro que seguia rumo à Fazenda da Folheta. Iam buscar a imagem milagrosa do Senhor da Agonia, “fazedor de chuva”, como explicou Marieta de João Cordeiro. Na capelinha elas estavam molhando o pé da cruz, “para o milagre vir completo”.

Realmente a seca estava brava mesmo. Meses e mais meses sem um pingo de chuva. O gado estava procurando capim mais verde nos brejos e muita vaca estava morrendo atolada. O Rio Folheta, no vau para o pasto de Blandina (hoje, onde é a pinguela para a casa de Zé Augusto) estava com uma aguinha mirrada passando por cima das pedras. A usina velha, para fornecer alguma energia elétrica para a cidade, tinha que ficar o dia inteiro com as comportas fechadas, sem trabalhar. Energia, só à noite e sem luz nos postes de braúna. Ordens de Zé Maia que João Gomes cumpria à risca.

No final da tarde chega a procissão trazendo o imagem do Senhor da Agonia e entoando o seu hino com louvor:

“Perdão Deus Clemente, perdão Deus de amor…” cantavam as beatas com os olhos cheios d’água. Aliás, água só mesmo nos olhos e nos muitos calos nos pés cansados das beatas. Mas foi a conta certa da procissão chegar à Ponte Davi, na Barragem, e o tempo, como por encanto começou a mudar. E as nuvens negras apareceram bem lá pros lados do Serro, ribombando alto e soltando raios para todos os lados e se as mulheres não correm com o crucifixo, o toró caia em cima de todo mundo e não ia respeitar nem o Senhor Crucificado.

E choveu, choveu, três dias sem parar, como na música de carnaval. Tudo quanto é rio e córrego transbordou; barranco desbarrancou; pontes caíram, açudes não aguentaram o peso da água e esta saiu rasgando tudo e o estrago foi terrível. Zé Guidinho já nem descia do Cruzeiro, onde morava, pois no dia da primeira pancada, se vocês se lembram, ele estava tomando umas pingas e fazendo discurso pelas ruas e acabou escornado perto de Tião Rita, ao lado do Córrego da Paciência. Quase que a água do córrego leva ele. Quando ele acordou com o aguaceiro caindo, tentou subir para sua casa, mas com a deficiência física, não conseguiu. Márcio de João Paulo e Zezé de Zé Carlota que estavam indo ao Cruzeiro para “trocar o óleo”, é que viram a situação periclitante dele e deram-lhe uma mãozinha e levaram-no até sua casinha.

No domingo, já com o tempo estiado, os meninos jogavam finco na praça, ainda sem calçamento e pegavam as primeiras tanajuras que caiam. Na igreja, o Padre José Garcia, defronte a imagem do Senhor da Agonia inicia a missa em agradecimento ao milagre da chuva farta. Zé Guedes, já bem chapado, numa “inhaca” de fazer frente à jaratataca, entra na igreja com seu cajado de cabo de vassoura, passa por todo mundo, chega até o altar mor da velha matriz onde estava o Senhor da Agonia e grita, bem na hora do ofertório:

– Oh, Senhor da Agonia! Desta vez o Senhor exagerou… Vê se capricha da próxima vez!

Padre José Garcia, que estava de costas, virou-se e deu-lhe uma olhada que chamuscou os ralos cabelos de Guidinho. E o pobre diabo ainda repicou:

– E não adianta olhar pra mim não, padre! Se o Mestre errou, imagine o senhor que é aluno?

O sacristão, Luiz Mário, chacoalhou a campainha de tanto rir e o coro, comandado por Joaninha de Seu Juca e minha avó Violeta, entoou “Pannis Angelicus” enquanto o padre colocava Zé Guedes pra fora da igreja, sob protestos deste, e risos dos até então compenetrados católicos.

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Responses

  1. e demos vivas as nossas crencas!!!!!

  2. É isso Angelo; São nossas crenças e nossas histórias. Se não são contadas agora por quem as viveu, pulverizam-se no tempo como poeira e se vão com o vento do esquecimento. Mas, se nós revivemos estas crônicas em nosso blog e depois as colocamos em livros, como faremos brevemente, ficarão para a eternidade e não seremos um povo sem cultura própria. Este é meu medo (ou meu sonho).


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