Publicado por: Dirceu Rabelo | 24/09/2010

Lá vem o correio sem mala!

Lá vem o correio sem mala!

Dirceu Rabelo

Com esta frase, mamãe nos chamava a atenção, quando chegávamos trazendo para ela, alguma novidade ou coisa errada que um irmão acabara de fazer: – Lá vem você, né correio sem mala!

Lógico que o “correio sem mala” ficava numa vergonha de dar pena, sem ter onde enfiar a cabeça de tanta sem-gracesa.

Mas a palavra “correio” sempre teve grande importância em minha vida e de nossa família. Mamãe – Maria das Mercês Thomaz – foi durante trinta anos funcionária da Agência dos Correios e Telégrafos de Dom Joaquim e se aposentou como APT – Agente Postal Telegráfica, ou chefe dos correios da cidade. A agência ficava anexa a casa em que nós morávamos, ao lado da Igreja de São Domingos, a igreja velha, onde hoje é a residência de José Inácio; esse casarão pertencia ao meu avô João Thomaz. Foi ali, com cinco ou seis anos de idade, que aprendi a escrever meu nome e a conhecer as primeiras letras e números, nos horários de folga de minha mãe. Eram também funcionárias dos Correios, minha tia Maria Daluz e Aparecida Simões; Irene Maia sempre trabalhava como substituta de alguma das funcionárias, quando alguém saia de férias e licenças, ou nos fins de ano, quando o volume de correspondências e telegramas era muito maior.

As malas (ou sacos) com as correspondências chegavam de Belo Horizonte e de Conceição do Mato Dentro pela jardineira de João de Fidico, na Linha 08 – Viação São Domingos, duas vezes por semana, numa viagem que durava de 8 a 10 horas; com tempo seco. Com chuva, na maioria das vezes a jardineira nem saia e as malas nem chegavam a ser colocadas por “Pai João” em cima de sua boléia, onde ficava o porta-malas e aonde se chegava por uma escada.

Daqui, as cartas e encomendas registradas eram distribuídas para Gororós, Carmésia e Senhora do Porto no lombo de burro, levadas por Sebastião Mourão Filho (Tãozinho Correio) e “seu” Bidinho – Alcebíades Joaquim de Amorim e que também se aposentaram nos Correios. Depois de Tãozinho, Zé de Ambrósio fez o trabalho de carteiro entre a sede e o distrito de Gororós. Quanto a Carmésia e a Senhora do Porto, o serviço de entrega de correspondências àquelas localidades foi se desfazendo na medida em que aqueles distritos se emancipavam de Dom Joaquim.

Dali, (da casa de meus avós) a agência dos Correios mudou-se para perto do antigo Fórum, anexo à casa de Wilson Teixeira que havia se casado com Tia Daluz. Até aí, os telegramas chegavam somente via telefone, quadradão, feito de baquelite, um antecessor do plástico, importado dos Estados Unidos e movido a baterias. Para que ele funcionasse a contento, havia a figura do “guarda-fios”; era um desbravador, que tinha que manter os postes de braúna de pé e os fios esticados, custe o que custar. Para isso, o único recurso era o lombo de boas mulas ou burros e um sobe e desce incessante de morros à procura de fios arrebentados depois de um temporal. Que o diga “seu” Nico Floresta, de Conceição do Mato Dentro e depois, Sr. Ulisses, que veio de Capelinha para nossa cidade com toda a família, dentre eles, os filhos Guinha, Carlinhos e Mulecão que foram nossos colegas de ginásio.

Depois chegou o telégrafo elétrico, aparelho criado em 1835 por Samuel Morse que recebia e enviava os telegramas em código; daí o código Morse, o inventor da traquitana. Eu tinha o maior orgulho de mamãe, por ela saber ler os risquinhos e pontos, “traduzindo-os” para o português e por transmitir os telegramas do português para os risquinhos e pontos, através de uma chavinha que dedilhava o tempo todo num tac-ti-tac sem fim. Lembro-me como se fosse hoje; ela, mamãe, ou tia Daluz sentadas ao Morse traduzindo uma extensa e fina fita de pequenas linhas e pontos pretos e anotando tudo num papel, aquilo que elas liam ligeiro, logo ali ao lado do livro lilás. E eu termino a crônica, deixando aí, só por desaforo, um trava-línguas para vocês que acharam graça do “correio sem mala” que vos fala.   

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Responses

  1. adorei…..
    adoro suas cronicas….
    e como uma viagem bem nitida no tempo….

  2. A crônica, como já disse Angelo, tem a vantagem de ser história e jornalismo ao mesmo tempo, pois ela resgata aquilo que poderia se perder no tempo, como nomes, fatos e lugares e a cultura de um povo se tornaria mais pobre. É o que eu procuro fazer com as crônicas sobre Dom Joaquim que, não demora, vão virar livro. Grande abraço.


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