Publicado por: Dirceu Rabelo | 27/09/2010

…e Pão de Queijo conheceu a Coca Cola.

…e Pão de Queijo

conheceu a Coca Cola.

Dirceu Thomaz Rabelo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Foto) Pão de Queijo e uma amiguinha

Para que vocês entendam esta narrativa de vez, e possam acompanhá-la desde já, vou logo explicando que Pão de Queijo era o nome de um burrinho de Tião Papulinha. Para os que não são dom-joaquinenses, explico mais ainda, que o Tião em questão, era, e continua sendo, um sitiante, proprietário de uma chácara bem perto da cidade e dono do Pão de Queijo.

Naquela época, 1955, por aí, o Tião entregava leite para sua freguesia na cidade ali pelas nove horas da manhã e o “suco de vaca” chegava fresquinho nos dois latões, carregados pelo nosso personagem Pão de Queijo, um de cada lado da cangalha e tocado pelo Daniel, filho do Tião. Vejam que, por respeito ao animal que nunca sacaneei, escrevo sempre seu nome com iniciais maiúsculas. Presto-lhe aqui, minhas homenagens póstumas.

Pão de Queijo, de tão calejado, já parava nas portas dos fregueses e ficava aguardando a retirada do leite no latão, para então seguir em frente até outra casa de outro freguês.

O burrico era uma gracinha. Pequeno, mas muito pequeno mesmo! Não chegava a medir nem um metro e quinze centímetros e gordo que nem uma porca. Aliás, ele não era gordo; era barrigudo. Uma pança desproporcional ao seu tamanico. Daí, o nome bem bolado: Pão de Queijo!

Ele era manso, mas às vezes virava uma fera; parece que ele tinha um trauma de infância, ou sei lá, uma dúvida qualquer: fizesse tudo com ele, de menos passar a mão na sua bunda. Aí ele saía do sério e dava coice até no vento.

Acontece que a meninada aproveitava que ele descia da rua nova, carregado de leite, com todo o peso em cima, para passar a mão no rabo do pobre coitado. Ele tentava revidar com um coice; parava de caminhar, murchava as orelhas, trincava os dentes, fazia força, mas o máximo que ele conseguia, era soltar um pum espremido e fedorento. E a molecada caia na risada.

Num dia daqueles, ele passou perto do bar do Barreado, que já estava lotado, com os dom-joaquinenses que moravam no Rio de Janeiro e que passavam um feriado na terrinha. Estavam ali rebatendo “a de ontem”, quando viram a farra da molecada. E ficaram a rir do infortúnio do pobre Pão de Queijo.

Não deu nem meia hora e volta o Daniel tocando Pão de Queijo, já com os latões vazios; os meninos sabendo disso, já não mexiam com ele. Agora, com os latões sem leite, mexer com ele era fria. O Dadá, já bem chapado sai do bar, acompanhado de Pedro Quitu e passa a mão nas nádegas do burrinho, sem saber do macete. Pão de Queijo não quis nem saber; manda os dois pés pra trás que acerta no peito dos dois que caem na poeira. A gozação foi geral. Mas os “cariocas” se reuniram imediatamente no bar e, entre uma cerveja e outra,  tramaram um “castigo” para o velho Pão de Queijo. Pediram ao Barreado seis garrafas de Coca Cola quente (na época só havia a normal, de vidro) e agarraram o burrinho, levantaram sua cabeça e fizeram-no tomar as seis garrafas, uma após a outra.

Meus amigos e chocados leitores! O pobre do Pão de Queijo começou por arregalar os olhos, depois esticou o rabo, eriçou a crina, arreganhou as ventas, murchou a barrigona e soltou um arroto que mais pareceu uma trovoada retumbante. E passado o susto e sob os aplausos dos “cariocas” e da molecada, Pão de Queijo subiu em disparada a rua de baixo, em direção à sagrada chácara, aonde ele teria um pouco de paz, sem aquela gente sem respeito e sem “modos” e suas bebidas gasosas, invenção dos americanos.  

Nota: Esta crônica foi escrita há alguns meses e só agora a publico. Nesse meio tempo, um personagem importante da história, Daniel, filho de Tião Papulinha veio a desencarnar. Presto-lhe aqui nossa homenagem (in memorian) ao caro amigo e a seus familiares, aos quais esta crônica é dedicada.

Anúncios

Responses

  1. Muito legal esta história. É mais um “causo” de nossa Familia. Vou repassar aos meus primos, filhos do Tião, pois creio que não leram.
    Sou filho de Moises, neto de Zeca Bernadino e Rosa de Paula e sobrinho de Terezinha de Tião Papulinha, aliás em 30/01/12 completa 1 ano de sua partida.

  2. Olá caro Luiz! Esta crônica faz parte do meu primeiro livro: “Palavras Lavradas”, onde em crônicas e versos tento “buscar” um pouco da cultura dom-joaquinense que aos poucos vai se perdendo. Logo depois que fiz esta crônica, o Tião também faleceu. Me parece que seu avô Zeca e dona Rosa eram comprades de papai e mamãe. Grande abraço!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: