Publicado por: Dirceu Rabelo | 27/10/2010

Cará e Carazinho: quando o acordeões choravam…

 

Cará e Carazinho:

quando os acordeões choravam…

Dirceu Thomaz Rabelo

 

Eles nasceram Geraldo e José Ferreira de Araújo, e segundo seu meio irmão, Valter Cará, que até hoje mora em Dom Joaquim, “o apelido ‘cará’ veio da beiçola dos antepassados africanos” e que era bem proeminente no Geraldo e no Cará Velho, o pai deles. Explica-se: o cará de rama tem a forma de um lábio carnudo, daí o apelido que ficou. Eram filhos de Sebastião Ferreira de Araújo (Cará Velho) – irmão do marujeiro Bento Mateus – e de Dona Maria Joaquina de Jesus, ou Maria Cará, também mãe do Valter e já falecida.

Em 1958, aproximadamente, vamos encontrá-los no Rio de Janeiro, para onde foram com a finalidade de trabalhar com o “mito” Heli de Clóvis, que havia saído de Dom Joaquim pobre e voltou milionário. Mas aí já é outra história ou outra crônica. Trabalhavam de dia e na boca da noite já estavam em algum lugar do Rio frequentado por nordestinos e mineiros saudosos de suas terrinhas. Nos primeiros dias, o Carazinho ficava no acordeão (ou acordeom), Cará tocava o zabumba e Tãozinho de Maria Brígida tilintava o triângulo. Formavam um trio nordestino tradicional. O pessoal mais antigo do Lopes sabe quem é ou foi Tãozinho.

Das andanças deles na Cidade Maravilhosa que eu tanto conheço e admiro, eles, depois de passarem pelo Largo do Machado (Catete), pela praça principal de Duque de Caxias, Central do Brasil, Largo da Carioca e Praça Tiradentes, chegaram a tocar em muitas festas juninas nos morros cariocas como na favela da Mangueira e nos perigosíssimos Morro do Tuiutí e na favela do Rato Molhado; tudo com o aval dos malandros que mandavam nas áreas. O Geraldo começou a tomar intimidade com o acordeom também, pois já tinha um começinho, aprendido na sanfona de oito baixos com o pai que era sanfoneiro “xonado” e do tio Bento, o “mestre” da Marujada de Dom Joaquim. Nas praças cariocas, havia o costume de se abrir a caixa do acordeom na frente dos músicos para recolher os donativos que não eram poucos; às vezes, para forçar o freguês a soltar a grana, passava-se um pandeiro bem perto das pessoas e a estratégia funcionava.

Chegaram a tocar na Rádio Mayrink Veiga, lado a lado com o “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga e do Dominguinhos e à cada dia aprendiam mais e mais; e sempre trabalhando de dia e vivendo a noite carioca entre mulatas bonitas, música e traçados de vermute com pinga e as famosas e gostosas cervejas “barrigudas”, para acordar cedo e iniciar um novo dia de trabalho com o Heli de Clóvis.

Quando vinham a Dom Joaquim, eles extasiavam os passageiros dos ônibus que com eles viajavam, com suas músicas bem dedilhadas e com virtuosismo de quem havia estudado música. Mas não sabiam ler uma nota musical na pauta. Era tudo de ouvido. Estando em Dom Joaquim, eles eram convidados a tocar em festas de casamento, aniversários, serenatas e em outros eventos, até mesmo fora do município. Com isso, faturavam mais uma graninha. Sempre vestidos a caráter: calças brancas, camisas listradas e sapatos de duas cores e bico fino, como nos morros cariocas.

O Geraldo voltou a morar aqui por uns tempos e como era muito alegre e engraçado, estava sempre rodeado de pessoas para ouvir suas molecagens e piadas. Jogava futebol – era goleiro – e não era dos piores. Era também motorista de caminhão e dos bons. Mas bom mesmo, era quando ele fazia chorar o acordeom.

O Geraldo Cará pegou uma pneumonia que foi piorando e virou tuberculose e daí para a morte foi um passo. O José (Carazinho), daqui foi para Capelinha e de lá foi para Água Boa; e foi perto dali, num lugar chamado Puáia, que sua vida teve um fim trágico. Há controvérsias sobre como foi sua morte. O que se sabe é que seu corpo chegou aqui em uma Kombi sem placas, com dois policiais, que o entregaram à família, com um laudo do médico de lá, dando como “causa mortis” mal súbito. O médico daqui, à época constatou várias costelas quebradas no corpo dele. Depois correu outra notícia por aqui, que ele estava ensinando acordeom para a filha de um fazendeiro, e esta estava gostando dele; o fazendeiro, não se conformando, mandou “fazer o serviço” e fim de conversa. Falou a lei do mais forte e ignorante.

Essa crônica é uma homenagem aos dois grandes músicos e um resgate de suas figuras, para aqueles mais novos que não os conheceram.

A doença e a violência calaram prematuramente os dois maiores “sanfoneiros” de Dom Joaquim de todos os tempos: Cará e Carazinho.  

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Responses

  1. e que tenho uma vaga lembraca deles!!!!
    e assim predomina a violencia devastando as coisas boas da vida!!!!!
    por falar nisto?
    Domjoka ainda e um lugar seguro para se viver???

  2. Esta crônica, caro Angelo, como outras que ando escrevendo, são mais jornalísticas e culturais, pois eu ando à procura dos fatos, para resgatar a memória das pessoas. E essas crônicas serão transformadas em livro daqui a pouco tempo. Quanto a Dom Joaquim, continua como sempre; ótima para se viver, desde que a gente não esquente a cabeça com o que falem da gente. E ponto final. Abração!

  3. Em compensação, temos hoje duplas sertanejas que bem podiam se chamar “Caralho e Caralhinho”…

  4. Caro OGODAY, você não poderia tirar conclusão melhor. O que tem de dupla sertaneja capenga por aí, não está no gibi.


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