Publicado por: Dirceu Rabelo | 03/11/2010

A Revolta dos Fogueteiros.

A Revolta dos Fogueteiros

Dirceu Rabelo

 

Final do ano de 1962; o “trem” estava tão brabo na política que escolheria o prefeito de Dom Joaquim que foi pedido reforço policial, para segurar a barra dos politiqueiros mais ranhetas. Enfrentavam-se os candidatos, meu tio Walney Thomaz Teixeira e Geraldo Madureira Simões (Barriado); este último, com seus correligionários, como tinham muita força junto ao governador da época, Magalhães Pinto, também udenista, conseguiram trazer de Belo Horizonte um tenente para comandar a tropa, já “programado” para perturbar os adversários do PSD – Partido Social Democrático. O PSD tinha como comandantes máximos, Doutor Ary Ascensão D’Oliveira e meu pai, João Rabelo Madureira, ou João Paulo (foto), como era mais conhecido.

Enquanto houve a expectativa de a UDN ganhar, o tenente “pau mandado” frequentou, descaradamente, a casa de Hermógenes Simões, líder político, e de outros udenistas, em noitadas regadas a cerveja e leitoas assadas.

O cabo Normando, de quem já falei aqui em algumas crônicas, era o chefe do destacamento e não via as atitudes do tenente com bons olhos, mas havia o respeito à hierarquia. Ele obedecia às ordens do superior e fazia de tudo para não ser desleal nem à PMMG, nem com ao de Dom Joaquim que o respeitava e admirava muito.

Com a vitória esmagadora de Tio Walney, e quando a farra começou, e a mando do “lado de lá”, o tenentezinho proibiu a queima de fogos em todo o município de Dom Joaquim. O eleitorado pessedista ficou revoltado, mas, como era formado por gente simples e pobre, acatou as ordens do lacaio que desonrava a sempre gloriosa Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. Mas o povo pulou carnaval e tomou cerveja o dia inteiro gritando o nome de tio Walney e seu vice, Orígenes Maia que também festejaram muito.

Só que à noite, já com o povo cansado de tanto pular, aos pés do cruzeiro da praça da matriz, alguns jovens conspiravam contra a ordem do tal tenente; haveriam de soltar alguns foguetes, sim, para infernizar os derrotados. Lá estavam Gésner, Antônio Paulo o Tóia (estes, meus irmãos), Joaquim de Pedro Viana, Geraldo Canela (irmão do Ornan) e Zezé de Zé Carlota. Gésner e Geraldo foram para o morro logo acima do bambuzal depois do quintal de senhor Wilson Carvalho; Tóia e Joaquim de Pedro Viana foram para o pasto de Blandina, onde hoje é o terreno de Daniel Reis. Zezé só ajudou na configuração do delito, mas resolveu não participar ativamente dele. Dos locais onde se posicionaram, soltaram vários foguetes de uma só vez e deram no pé, caíram fora. A polícia, mais do que depressa foi ao encalço dos “meliantes”, mas só conseguiram prender o Joaquim Viana.

Gésner e Geraldo Canela chegaram às suas casas são e salvos, mas Tóia, com o dia já claro, continuava desaparecido. Como a polícia chegou a atirar para que Joaquim e ele parassem de correr, todos pensaram no pior: Tóia teria sido baleado e morrera.

Aí, a coisa tomou um rumo dramático; Dr. Ary, Tio Walney, Orígenes papai foram para a delegacia e exigiram a soltura de Joaquim, “imediatamente” e que o tenente arbitrário “apresentasse pelo menos o corpo” do jovem Antônio Paulo, senão medidas drásticas seriam tomadas “pelo povo de Dom Joaquim”.

Cabo Normando, vendo as coisas degringolarem para o pior lado possível, cochichou no ouvido de papai: “olha, o Antônio correu para o lado da Barragem e subiu beirando a água; eu vi ele correndo e conseguindo furar o cerco”.

Papai correu para o local indicado e chegando lá encontra com Tibúrcio Maia que estava pescando e os dois subiram gritando: Antônio! Antônio! Pode sair! É seu pai; a polícia já foi embora!

Depois de muito gritarem, de uma moita fechada de grão de galo sai o Tóia cismado, todo sujo, com olheiras, arranhado, roupa rasgada, como um neurótico de guerra, olhando pros lados e desce de encontro aos “salvadores”. Que enrascada!

O povo que já estava “pê da vida” com o tenente, exigiu a saída imediata dele. Bastou um telegrama “urgente” de Dr. Ary para os deputados majoritários da época em Dom Joaquim, Dr. Jairo Magalhães e Vicente Gabiroba e uma patrulha com um capitão apareceu aqui no dia seguinte e “guinchou” o queixudo. Ficaram no quartel local somente alguns soldados, agora sob o comando do velho e bravo nordestino, cabo Normando. Este com muita sabedoria “aconselhou” aos pessedistas que soltassem foguetes mais distante do centro da cidade, a fim de evitar aborrecimentos. E evitou. Quem perdeu se acomodou. E o foguetório pipocou, mas só de longe.

E os vitoriosos cantavam na porta da casa de um Barriado sorridente e esportista, como sempre: “…e eu falo porque eu sei, até o Barriado votou no Walney…” E a festa rolou sem atritos. O problema era só o tenente…

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Responses

  1. Que saudade de vovô!!!!

  2. Ele está vivo! Tanto está, que estamos comentando suas façanhas aqui na sua última passagem pela terra. E ele, com certeza, está muito feliz no Plano Espiritual e muito bem acompanhado.
    Beijos do Pai.


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