Publicado por: Dirceu Rabelo | 12/11/2010

Eli de Clóvis: um homem ou um mito?

Eli de Clóvis: um homem ou um mito?

Dirceu Rabelo

 

Eli era dom-joaquinense e o único filho homem do senhor Clóvis Chaves. Senhor Clóvis era um baiano que esbarrou nestas cercanias e aqui se casou com dona Inhalice, gerando uma prole mediana. Eli, muito cedo e com poucos estudos foi para Belo Horizonte e já começou a trabalhar na Pensão Comércio, na Avenida Oiapoque, em frente à Pensão Diniz, dois endereços conhecidíssimos de todas as pessoas do interior que chegavam à rodoviária velha de BH, pelos preços módicos, localização e simplicidade. Ali, ele ficou conhecendo um português, senhor Pedro Espirro que, impressionado com sua desenvoltura, dinamismo e comunicação com os clientes, o levou para o Rio de Janeiro e o colocou no ramo do comércio de cereais, de legumes e verduras, tipo sacolão. Ele começou num terreno baldio da Praça Tiradentes com Rua do Lavradio, onde sem tirar licença da prefeitura carioca, sem alvará, sem nada, como sempre acontece no Rio, montou uma barraca de lona bem grande e ali vendia de tudo, e muito. E era tudo pesado na hora, pois não existiam ainda esses terríveis sacos plásticos poluidores de hoje e os fregueses é que levavam suas sacolas de panos de casa, para comprar suas mercadorias. Êta povo ecológico!

E o negócio cresceu de tal maneira que Eli começou a arregimentar rapazes de Dom Joaquim, nos quais ele confiava para abrir novas Cofaps, como eram chamados esses comércios. Além desse da Praça Tiradentes, ele abriu outro na Rua Silva Jardim, quase esquina do Largo da Carioca, outro na Tijuca, outro no Catete e depois abriu o Rei do Queijo, na Rua da Carioca e uma granja em Xerém, no pé da serra, subida para Petrópolis, também. Ufa! E o Dom Joaquim em peso trabalhando com ele lá no Rio de Janeiro. Os rapazes já chegavam e tinham até um andar de um casarão na Rua do Senado para eles se alojarem.

Lembro-me que quando eu era criança e que o Eli vinha a Dom Joaquim, era uma festa só para nós. Era só passar perto dele, sentado no bar do Barreado, tomando sua cerveja com mais dez filões na sua mesa que ele enfiava a mão no bolso e sacava um monte de notas novinhas em folha e dava-nos duas ou três notas de dois ou cinco cruzeiros. Era farra pra mais de metro! Ele era de uma generosidade a toda prova: não gostava de ver ninguém passando necessidades e ajudava a todos com alimentos, roupas, dinheiro vivo e tudo o mais, que pudesse aquecer o coração de seu semelhante menos afortunado. 

Como tudo no Rio de Janeiro sempre foi meio no rolo, segundo testemunhas, o Eli seguindo as normas dos comerciantes da época, assinava a carteira de trabalho de todo mundo, para que eles tivessem um documento legal e não descontava nada de ninguém, mas também não recolhia nada. Quando os fiscais passavam, “o deles” já estava separado e era só passar a propina, para tudo ficar como “d’antes no quartel de Abrantes”. O Rio sempre foi assim e sempre será assim. Já morei lá por muitos anos e com toda a sua beleza, o Rio carrega nas costas esse problema moral; consegue-se tudo com propina.

Quanto ao pagamento dos funcionários, ele era feito diariamente. “Todos os dias à tarde, terminado o expediente, o ‘senhor Eli’ pagava todo mundo em dinheiro e pagava bem.” Dali, o pessoal já saia pra zona boêmia do Mangue e ninguém juntou dinheiro, pois como recebiam todo dia, também gastavam tudo todos os dias. Das pessoas que me municiaram de dados para fazer esta crônica, algumas me informaram que o único que ficou no Rio e seguiu os passos do guru dom-joaquinense foi o Chico Duca. Ele trabalhou com o primo Eli por 12 anos e há 50 anos é um grande empresário no ramo de carnes em todo o Estado do Rio de Janeiro. Outro que ficou lá pelo Rio de Janeiro foi seu irmão de criação, Gaci, que o Sr. Clóvis trouxe da Bahia para criar, menino ainda e que depois seguiu o mesmo rumo que a turma dom-joaquinense.

Ele, Eli, teve altos e baixos financeiros na vida; ficou rico, quebrou, ficou rico de novo, depois veio a derrocada financeira de novo, mas ajudou muita gente, mas muita gente mesmo. Casou-se em primeiras núpcias com D. Elza e se separou para depois se casar com D. Ieda. Dois dom-joaquinenses fizeram parte importante de sua vida no Rio de Janeiro: Pedrão, filho de Zezé de D. Amélia e irmão de Osmar e Dadá e que foi seu motorista durante toda a sua vida; e Celuta, irmã de João Américo que foi sua funcionária por muitos anos e ajudou a criar seus filhos. Teve cinco filhos com Dona Elza que vinham muito a Dom Joaquim, quando crianças, mas depois de adultos sumiram do mapa: Rogaciano (Porró), Roberto (Alpiste), Ricardo, Iracema e Eliane.

Eli faleceu em sua granja em Xerém há muitos anos e foi enterrado no Rio mesmo, mas deixou muita gente agradecida, inclusive este escriba que agora lhe presta esta homenagem.

Eli de Clóvis: um grande homem! Nada de mito. Era de uma generosidade sem tamanho.

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Responses

  1. Republicou isso em Biólogo31e comentado:
    Bela homenagem do blogueiro, como eu, Dirceu Rabelo.


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