Publicado por: Dirceu Rabelo | 19/11/2010

Um homem chamado solidão.

Um homem chamado solidão.

Dirceu Rabelo

 

“Sô Moço” nasceu Joaquim Santana, mas poderia muito bem ter recebido na pia batismal, o nome de Joaquim Solidão. Pobre, negro, sem estudos, nascido na roça e ainda por cima, desde pequeno, mostrou-se meio aluado, quieto, tristonho e de pouca conversa. O apelido veio do tratamento educado que ele dava às  pessoas, por qualquer motivo: Deus te ajude sô moço! Obrigado sá moça!

Ainda menino, mudou-se com a família para a cidade, onde fazia pequenos serviços como capina, corte de lenha, etc. Os garotos da cidade descobriram que ele se irritava se o chamasse de certo apelido; aí então, ele começou a reagir, correndo atrás deles e jogando pedras. Uma de suas irmãs o levou para Belo Horizonte para morar com ela, mas foi só ele sair na manhã seguinte para comprar pão, para desaparecer.

Depois de oito meses de sumiço, Elizeu Thomaz passou por ele na BR 381 na altura da Cenibra, entre Ipatinga e Governador Valadares; cabelos, barbas e unhas enormes e precisando urgente de um bom banho. Elizeu parou o carro e o cumprimentou. Ele prontamente reconheceu o conterrâneo. Perguntado sobre o que estava fazendo, respondeu que “estava correndo o mundo”. Ele ficou nesses oito meses mendigando estrada a fora, dormindo ao relento e vivendo da caridade alheia e sob os olhares temerosos das pessoas que não o conheciam.

Elizeu acabou levando-o para Virginópolis, onde recebeu uma geral de um barbeiro da cidade, um banho no capricho e roupas limpas. Depois de bem alimentado ele ficou morando num barraco próprio com pessoas que tomavam conta dele.

Numa viagem que fez a Dom Joaquim, Elizeu recebeu o pedido de Rui de Figueiredo e Joaquim Violeta para trazê-lo de volta. Chegando a Virginópolis, Elizeu ficou sabendo que “Sô Moço, o cigano negro” já tinha dado no pé. Só foram encontrá-lo depois de uma semana, em São Pedro do Suassui.

Depois de mais uma geral nele e nova troca de roupas que já estavam imundas, Elizeu pode enfim trazê-lo para Dom Joaquim e o entregou à sua família.

Elizeu conta que “Sô Moço” sempre foi muito seco, sem emoções aparentes, mas na chegada, quando ele reconheceu as primeiras casas de Dom Joaquim e principalmente quando ele viu a torre da igreja e depois a capelinha, chorou copiosamente e alto, muito alto, sem querer esconder o choro de alegria e saudade intensas.

Voltou a capinar quintais e não comia nada de origem animal; nem carnes brancas, peixes, ovos, queijo, nada! Às vezes, nós brincávamos com ele:

– “Sô Moço”! Vá lá em casa e capina meu quintal, que eu faço um frango com quiabo e torresmo pra você.

Ele respondia de imediato: Brigado! Num quero não! Eu gosto é de angu com gondó e “abroba” d’água com quiabo.

“Sô Moço” morreu novo. Tinha no máximo 42 anos. Sempre triste, sem nunca ao menos esboçar um sorriso; um poço de solidão.

Anúncios

Responses

  1. Dirceu, eu ainda menino me lembro dele capinando o quintal pra Tio Louro. E não conseguia entender como uma pessoa não comia carne. Tia Ruth costumava testá-lo ao fazre o prato dele escondendo alguns torresmos debaixo do arroz e do feijão. O prato voltava sempre vazio, mas com os torresmos devidamente garimpados e separados. Acredito que tenha sido “Sô Moço” um dos precursores do “vegetarianismo” moderno. 🙂

  2. Joãozinho, caro amigo! O Sô Moço gostava também de mandar uma aguardente “de vez em quando” pra dentro do bucho. Certa vez ele apareceu lá na venda do Pio, onde eu estava enchendo a “fuça”, comendo um tira gosto de carne de porco e com uns enfeites de alface no prato. Ofereci a pinga pra ele. Ele tomou. Dei-lhe um palito pra tirar o tira gosto e ele conseguiu pescar uma baita folha de alface. Parecia lagarta!

  3. Dirceu, quantos preciosidades você tem resgatado aqui no seu blog! Parece-me uma excelente oportunidade de se “eternizar” fatos, casos e pessoas que, ainda hoje, povoam nossas lembranças. Em relação ao “Sô Moço”, lembro-me de quando ele, já “mamado”, costumava ficar andando em círculos. Nesta época eu trabalhava no Bar do “Seu Tibúrcio” (O cordato) e servi muitas “branquinhas” ao “Sô Moço”, pagas por algum cliente. Por razões que desconheço, este personagem tinha um ódio mortal de um senhor (que morava na Rua do Cruzeiro) chamado “Zé Inês”. Obrigado por permitir que estes “mitos” não desapareçam!! Um abraço.

  4. Caro Amarildo,
    Já disse algumas vezes aqui no blog que a crônica tem essas maravilhosas funções: de contar a história e da narrativa jornalística. Claro que a gente acrescenta a emoção, através de um pequeno fato que às vezes nem tenha ocorrido, mas que dá o tempero que o leitor espera do bom caso contado. É, como você mesmo disse, um resgate do passado de Dom Joaquim que alguém teria que fazer. O Tarcísio Fidélis faz um grande trabalho de historiador, buscando datas, nomes e fatos que marcaram a história de nosso povo. Ele mesmo sabe que o trabalho ainda não está completo, mas ainda há tempo de completá-lo. Eu faço um trabalho de resgate dos fatos, gente, histórias que o tempo teima em consumir e escrevo em forma de crônicas e poesias. Tudo isso irá para os livros que ainda são a melhor forma de guardar os fatos.
    Você me lembrou desse fato do Sô Moço odiar o Zé Inês e eu tinha me esquecido disso; se eu souber a razão de tanto ódio, posso até colocá-lo na crônica.
    Obrigado, primo e amigo, pelo incentivo. Continuarei escrevendo e fazendo os “posts” para que vocês leiam e comentem; preciso desses comentários.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: