Publicado por: Dirceu Rabelo | 22/11/2010

Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones.

 

Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones

Dirceu RabeloMinhas sandálias havaianas de tão gastas, já estavam soltando as tiras e o dinheiro que eu ganhava na Brasilit, não sobrava pra comprar um tênis melhor que o par de “Congas” e uma calça Far-West da Alpargatas que eu usava no dia a dia; uma calça da marca Lee, importada, nem pensar.

Daí, arrumar namorada naquelas condições, era caso perdido. Não pegava nem resfriado.

Num sábado nublado e frio, a noite engoliu o dia mais cedo com uma chuva miúda; nós morávamos numa pensão na Avenida do Contorno, logo acima do Colégio Humberto Rosas, depois do viaduto da Floresta. Uma turma grande de Dom Joaquim e de outras cidades do interior. Todo mundo numa pindaíba de fazer dó. Sem ter o que fazer, fiquei a andar pelas ruas desertas da Floresta com um guarda-chuva velho e minhas inseparáveis sandálias havaianas.

Eu pensava: puxa vida, será que só eu estou solitário esta noite? Será que todo mundo tem o que fazer ou tem uma companhia e eu não?

Parecia que sim. Tudo tramava contra mim. Pobre, longe de casa, sozinho, sem conhecer ninguém, além dos poucos colegas de pensão e além de tudo, tímido até o último grau.

Andava e pensava, quando lá no final da rua veio um vulto de calças compridas e de guarda-chuvas como eu.

Pensei: deve ser alguém como eu, solitário e a procura de uma mulher.

Que nada! Era uma mulher que, como eu, também estava solitária e tinha saído para procurar alguém. Depois de um desencontro de guarda-chuvas no passeio, começamos a rir, um da cara do outro, e rolou um papo. Ela era empregada na casa de uma família – uma morena linda! – e tinha chegado há pouco tempo do norte de Minas. Foi minha primeira namorada em Belo Horizonte e na casa da patroa – e era uma casa mesmo – só se ouvia as bandas inglesas, The Beatles e The Rolling Stones. Nós ficávamos namorando na porta da casa e ouvindo todo o repertório dos gringos, tentando cantar as músicas em inglês; uma piada.

Por motivo fútil nós terminamos, mas chegamos a nos ver algumas vezes ali pela Floresta. Passados uns oito meses, quando a procurei novamente, soube que ela tinha voltado para o norte do estado, grávida de um dos filhos da dona da casa em que trabalhava. Uma amiga dela me contou que a patroa queria que ela abortasse de qualquer maneira; como ela não aceitou “tirar a criança”, a patroa deu-lhe uma boa quantia em dinheiro e mandou-lhe embora com barriga e tudo. Essa patroa, com certeza, não era uma pessoa que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones. Quem os ama, não comete esse tipo de pecado mortal.  

Esta crônica teve o patrocínio de:

 

 

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Responses

  1. Que história mais tocante, Dirceu. Até me fez lembrar das minhas solitárias tardes de domingo na adolescência. Não vivia sozinha e tinha amigas, mas a solidão às vezes também se faz presente quando se é (na época eu era) “diferente”.
    Quer dizer, continuo diferente, mas hoje considero isso uma qualidade. rsrs
    Será que todos nós estamos relembrando os Beatles com a vinda do John? Que saudosismo gostoso, né?
    grande abraço

  2. Atena, querida. Nós já somos “velhos conhecidos” do Blogueiros do Brasil e, portanto, vou fazer uma coisa diferente: vou comentar seu comentário!
    Como é que nós que enveredamos para “os obscuros caminhos da arte”, somos mais sensíveis que as outras pessoas? Incrível! O seu comentário é como se você entrasse dentro do meu pensamento e o devassasse, mostrando a todos que não somos “loucos” como eles pensam, mas “diferentes” e você colocou isso muito bem. E saiba que essa é uma qualidade que muita gente endinheirada queria ter, mas não é coisa que se compra.
    Realmente, com a vinda de John ao Brasil, embora eu ouça as duas bandas sempre, me bateu um saudosismo e me lembrei da “empregada” da qual omiti o nome por questões obvias, e saiu aquela crônica.
    O que eu posso fazer agora no final do meu comentário do seu comentário? Agradecer-lhe pelo carinho e mandar-lhe um beijo mineiro carinhoso. Muito obrigado mesmo!


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