Publicado por: Dirceu Rabelo | 08/12/2010

Dom Quixote de La Mocréia (Quixo)

 

Dom Quixote de La Mocréia (Quixo).

Dirceu Rabelo

 

“Seu” Virgílio, sapateiro dos bons, lutou para acabar de criar sozinho, os cinco filhos homens. Tinha ficado viúvo cedo e resolveu não se casar mais. Morava na Rua do Barro de Cima e os meninos ajudavam no serviço e estudavam no grupo escolar. Era o que ele podia fazer por eles: dar-lhes um lar, educação, alimento, roupas e fazer o máximo para nenhum deles cair em algum vício.

Os meninos estavam indo bem. Francisco, Sebastião, Domingos, Romeu e Antônio eram meninos normais que gostavam de pescar e tomar um banho no Rio Folheta.

Conforme foram crescendo e chegando aos 18 anos, cada um foi caçando seu rumo e só sobrou o Sebastião. Mas ele não gostava de sapataria não; queria mesmo era fazer coisas novas, criar peças, um inventor! Mas além de inventar coisas, ele gostava da “mardita”, da “marvada”. Seu Virgílio morreu pedindo a ele que parasse de beber, mas de nada adiantou; Sebastião, depois da morte do pai danou a beber mais e mais. Depois parava por uns tempos e depois voltava e invernava.

Certo dia, ele já estava pra lá de Marrakesh, bebaço, quando chegou a respeitosa e culta Dona Dolores e lhe deu um livro para ler, com a recomendação de que só começasse a leitura, quando estivesse são. Ali mesmo ele já começou a sarar da pinga, tamanha “a chamada no saco”. Ela, com toda a sua finura, simplesmente quis dizer: “ao invés de encher a cara seu traste, leia um livro”.

Dali ele foi pra casa e logo que melhorou, leu o tal livro num tapa: Dom Quixote de la Mancha, do escritor espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra. Como é que um livraço desses veio parar aqui em Dom Joaquim? Só mesmo pelas mãos de D. Dolores!

Ele ficou impressionado com a loucura de Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Panza, lutando contra as pás do moinho de vento, para defender sua amada Dulcinea.

Trabalhou por dois dias em sua pequena oficina de consertos de tudo: panelas, tachos, alambiques, máquinas de moer carne, o escambau! No terceiro dia ele terminou o expediente e saiu para tomar umas na venda do Ataliba, quase na ponte de Tião Rita. Depois da terceira pinga, jurou na porta da loja de João de Zica – onde existia o único mirante da cidade – que era o famoso Dom Quixote de La Mocréia.

Quem mesmo?

– Dom Quixote de La Mocréia! E virou “Quixo” para o povo, porque mineiro já adora simplificar as coisas; palavras então?

E o Quixo bebia e gritava que era Dom Quixote de La Mocréia e escornava na chuva. Quando sarava do porre, bebia de novo, já na venda de Zé Fróis, ao lado da loja de João de Zica e gritava: Ai que vontade de ser mulher! E a pobre da Dona Dolores morrendo de dó dele. Ela, muito piedosa, pensava que tinha, com o livro, embaralhado a mente do pobre Sebastião, agora Quixo, ou Dom Quixote de La Mocréia, como ele mesmo se autodenominava.

Quando ficava sem beber, além de grande profissional numa oficina de consertos, Quixo era grande cozinheiro e foi em sua casa, ainda garoto que eu experimentei pela primeira e única vez, carne de capivara; e acompanhada com ora-pro-nóbis e angu. Era um mestre na cozinha.

Contam que certa vez ele, bêbado, aprontou tanto que um tal tenente Eugênio que era chefe do destacamento da Polícia Militar  daqui de Dom Joaquim mandou um soldado prendê-lo. Na manhã seguinte, o tenente mandou o soldado ir lá na cadeia velha para soltá-lo mas a cela estava vazia e o cadeado trancado. Quando chegaram a casa dele, ele estava tranquilo trabalhando na oficina e já curado do porre. O tenente perguntou-lhe como é que ele tinha saído da prisão. Ele calmamente respondeu: abrindo o cadeado e depois fechando ele de novo. O tenente fez questão de levá-lo até o xadrez para que ele repetisse a façanha e ele só com as unhas e dedos fortes e grandes e um preguinho que achou no chão, desmanchou o cadeado antigo e sem tecnologia nenhuma. Depois montou o cadeado e foi-se embora sem esboçar um sorriso. Quixo era um cara sério, a não ser quando bebia. Aí, queria ser mulher, era Dom Quixote…

Ninguém nunca entendeu foi esse negócio do Quixo gritar que tinha vontade de ser mulher. Ele não levava jeito, tanto é que mais tarde se casou com Maria de Sô Bidinho e ainda viveu muitos anos em companhia dela. Quando dava uma recaidazinha nele, ela buscava uma dose da branquinha no Orígenes e dava pra ele. E era só. Ele a chamava de mãe e com razão. Maria era para Quixo, mais que esposa, mais do que mãe; era o próprio Sancho Panza. Quixo morreu antes dela, motivado pelo seu passado de bebedeiras e sempre brigando com seu moinho de ventos interior, em delírios que vinham de vez em quando…

Anúncios

Responses

  1. Ao ler o seu texto voltei cinco décadas no tempo, que maravilha!

    Me lembro que foi no ano de 1969, estava com idade de 10 para 11 anos. Depois de vários anos fora, minha mãe já não aguentava de saudades do pai dela, de seus parentes e amigos de Dom Joaquim, sua cidade natal.

    Nossa viagem iniciou em Goiânia, nosso pai juntou a mulher e seus oito filhos, colocou todos em uma kombi e saiu com destino a Dom Joaquim (esta viagem dá um livro). Eu tinha contraido uma catapora, fui com o corpo todo “pipocado” e com uma prescrição bem radical de não sair no sol e nem na chuva. Poucas coisas eu poderia comer.

    Chegando em Dom Joaquim, como a família era grande, minha mãe hospedou uma turma na casa de meu avô Bidinho e outra turma na casa de Tia Maria.
    Eu fiquei nesta turma na casa de Tia Maria e Tio Quixo. Minha Mãe passou para a Tia as recomendações para minha catapora não evoluir e, não sei por qual motivo, uma delas era não comer manga.

    Era férias de final de ano, as mangueiras todas carregadas. No fundo da oficina de Tio Quixo tinha uns pés de manga espada. Meus irmãos comendo manga e eu não podia, tinha uma marcação implacável de minha Tia. Só que quando ela descuidava Tio Quixo me chamava para dentro de sua oficina, pedindo para mim rodar a ventoinha da forja ou mesmo ajudá-lo em alguma nova invenção. Escondido me oferecia as mangas que eu tanto desejava.

    Voltei em Dom Joaquim em 1985, encontrei poucos parentes e nunca mais retornei. Jamais chupei mangas gostosas como aquelas, ainda sinto o cheiro e o sabor da manga espada. Ao ler o seu texto eu voltei no tempo e lembrei te tantas coisas incríveis que eu vivi em Dom Joaquim e que nunca se apagaram da minha memória.

  2. Caro Ranieri. Você não pode imaginar como eu me emociono quando recebo um comentário (comentário?) como esse que você acaba de me mandar. Este é um dos objetivos deste nosso blog: resgatar a cultura de Dom Joaquim e crônicas como esta do Quixo, que eu conheci muito, estão sendo feitas por mim de maneira jornalística, buscando as pessoas do passado de nosso município e que foram importantes para nós de alguma maneira. Claro que uso de um recurso que Deus me deu, para “florear” a crônica, dando-lhe um brilho que segure o leitor que assim como você, quer ler uma boa matéria. Aliás, procure em “Crônicas” o Título recente: “Lá vem o correio sem malas”, onde falo de minha mãe, Sô Bidinho e de todos os funcionários dos Correios do passado.
    Agradeço-lhe pela “Crônica” que você me enviou e que estará à mostra para todos aqueles que visitarem o blog. Grande abraço fraternal e feliz 2011 para você e toda a querida família Amorim.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: