Publicado por: Dirceu Rabelo | 13/01/2011

Juquinha da Serra x Zé Guedes: o embate que por pouco não aconteceu.

Juquinha da Serra x Zé Guedes: o embate que por pouco não aconteceu.

 

Dirceu Rabelo

O trem ia feder a chifre queimado se tivesse acontecido. Imagine só! Juquinha da Serra e Zé Guedes se pegando a unha aqui em Dom Joaquim? Mas já vou logo adiantando; não aconteceu por um milagre da cachaça “Mata Saudade”, que costurava muitas paradas mal resolvidas.

Seu Júlio, motorista do ônibus da Viação Santana que fazia a linha Dom Joaquim/BH naquela época, estava passando pela Serra do Cipó com a neblina baixa, frio de doer, indo para a capital mineira e vendo o Juquinha na beira da estrada parou e perguntou pra ele:

– Ô veio! Quer passear em Dom Joaquim amanhã e sair dessa neblina baixa.

– Lá tem pinga da boa? Perguntou Juquinha, sorridente, mostrando sua boca murcha sem um dente sequer.

Seu Júlio respondeu pra ele que, o que não faltava em Dom Joaquim era pinga boa e mulher bonita. Juquinha deu até bicota.

Ficou combinado que Juquinha iria fazer um “tour” em Dom Joaquim no dia seguinte.

Antes de acelerar o velho ônibus, “seu” Júlio ainda recomendou ao Juquinha:

– Ô Juca! Não deixa de tomar um banho não! E lava bem essa rola veia!

Juquinha caiu na risada e emendou:

– Cuá! Tá frio dimais da conta! Adispois eu passo uma água no pé.

No dia seguinte, na hora marcada, lá estava Juquinha com sua trouxa de roupas e seu chapeuzinho de palha, igualzinho está lá na estátua dele.

Foi só chegar a Dom Joaquim e “seu” Júlio arrumou um jeito de dar um banho no Juquinha na casa de tio Bentinho Costa, onde ele se hospedava. A inhaca do veio Juquinha empestiou o ônibus.

Banho tomado, almoço na pança, hora de conhecer Dom Joaquim e sua tribo. Primeira parada: venda de Tio Bentinho, ao lado da casa dele. Mau lugar para se conhecer, quando o dono era Bentinho Costa.

Papo vai papo vem, chega Zé Guedes fazendo entrega de algumas vassouras de taquaruçu ali na venda. Cumprimenta a todos educadamente como de costume, encosta-se no balcão, recebe de Tio Bentinho o dinheiro relativo à venda das vassouras e uma boa dose da boa pinga de Nico Mucinha.

Nisso, “seu” Júlio já soprou para o Juquinha que “aquele baixinho da perna mais curta que a outra” que acabara de chegar era um dos homens mais bravos de Dom Joaquim. Ele se referia ao pobre do José Guedes.

Tio Bentinho, pegando a deixa, dedou pra Zé Guedes que aquele forasteiro da boca murcha era o “cão endiabrado”  da Serra do Cipó. Comia lagartixa como tira gosto de pinga.

O clima já estava armado. Zé Guedes que já tinha tomado “umas” lá mesmo no Cruzeiro, já arriscou uma fuzilada de olho no tal machão da Serra.

Como o Juquinha estava meio frio pra encarar o terror de Dom Joaquim, “seu” Júlio mandou servir uma “Mata Saudade” para ele, que encheu a bochecha e engoliu de uma só vez, quase um quarto da boa. Aí Tio Bentinho se aproximou e atiçou a fornalha:

– Ô Juquinha! O perigoso lá tá falando que na Serra do Cipó só dá florzinha e veado gaieiro.

Aí o Juquinha se queimou de vez e retrucou alto:

– Viado gaiêro, só se for o butão dele!

Tio Bentinho, “seu” Júlio, Tio Joaquim Violeta, Tio Dedá e todos que presenciaram o “quase embate”, quase que rolaram de tanto rir.

Zé Guedes, já sapecado, tomou as dores pra ele e riscou o cabo de vassoura no chão e falou desafiador:

– Aqui em Dom Joaquim, galo de fora não arrasta espora!

E pinga pra lá, pinga pra cá; pequenas ofensas pra lá, pequenas ofensas pra cá… No final, não rolou nada de briga e nem rolaria, porque os atiçadores só queriam ver mesmo um bate boca que afinal aconteceu. Eles se divertiram muito com os dois bêbados, famosos depois de mortos. Um é estátua muito visitada na Serra do Cipó; virou famosa atração turística. Outro dá nome a uma rua importante de Dom Joaquim. Quem diria! 

Foto: Wagner S. Ribeiro

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Responses

  1. Que maravilha!
    Filha e neta de mineiros, essas histórias sempre povoaram minhas lembranças. Sempre soube que um dia viria pra Minas, a terra do meu coração. Hoje, posso trocar esse “cunversê” com alguns queridos amigos de Poços de Caldas e eles vão adorar quando eu repassar “esse causo”.
    Obrigada, Dirceu!

  2. Marília,
    Destas crônicas e poesias publicadas neste blog, parte delas estarão no meu primeiro livro “PALAVRAS LAVRADAS – Crônicas e Poesias” que não demora a ser publicado. Obrigado por sua visita ao nosso blog, que me deu o prazer de detonar os 20.000 (vinte mil) acessos no seu primeiro ano de vida. Beijão!

  3. Sou conterrano do Juquinha, já dormi na casa do irmão dêle, quando êle era vivo, ali pertinho da estátua. Estou escrevendo uma poesia sobre minha vida e falo um pouco do Juquinha. Veja uma estrofe da poesia:

    La no alto Palácio,
    Bate forte o coração;
    vejo a estátua do Juquinha,
    Clavada no espigão;
    Represnta o homem humilde;
    Nascido lá no sertão.

  4. Caro poeta A. Costa. Que prazer o amigo está me proporcionando, entrando aqui em nosso blog para nos mostrar em primeira mão alguns versos, uma estrofe inteira de sua poesia que é também sua biografia.
    Grande abraço deste dom-joaquinense que adora esta gente maravilhosa da Serra do Cipó, que engloba muitos municípios, dentre eles, Santana do Riacho, Jaboticatubas, Conceição, Itabira, Morro do Pilar e outros.

  5. Todas as vezes que passo na Serra do Cipó indo para Conceição, lembro da minha infância. A minha maior alegria era quando chegava o período de férias, e ficava ansioso para o dia da viagem chegar. A viagem de BH à Conceição era uma infinidade de tempo. Parecia que Conceição era uma cidade muito longe. E na verdade era,… pois quando passava da ponte do Rio das Velhas, a estrada era de terra e esburacada, era custela para todo lado, sem contar com as infinitas curvas da Serra. Uma viagem que hoje leva duas horas e meia de carro, antes eram aproximadamente quase quatro horas. Era um tal de sair de um buraco e cair no outro. Bendito asfalto que veio em boa hora. Pegando a estrada a caminho de Conceição do Mato Dentro, cidade que era e continua sendo a minha eterna paixão, indo pela estrada observando a belíssima paisagem, e quando chegava na subida da Serra eu me maravilhava com a imensidão do mar verde que se apresentava aos meus olhos. Como era lindo toda aquela visão. Era a prova da existência de Deus. Depois da subida vinha a decida cheia de expectativas de um novo encontro com o senhor Juca. Que, como dizia o meu pai (que continua vivo graças a Deus, mas o Juquinha se foi e virou lenda), – Na frente nós vamos encontrar um senhor que mora aqui na Serra do Cipó, e sempre que a gente passa ele dá flores. O carro ia comendo a estrada e a gente ia ficando mais ansiso para ver o Juquinha. Algumas vezes o Juquinha aparecia, outras vezes era decepção pura… o Juquinha não estava no lugar que costumava ficar. Quando viamos o Juquinha, a gente pedia o meu pai para parar o carro, e assim davamos biscoitos e bala para ele. Ficavamos uns quinze minutos e depois nos despediamos dele, levando as flores que ele nos dava… é claro. O Juquinha era um homem simples, e acredito que era uma boa pessoa. Enfim, hoje virou lenda, e muitos que não o conheceram, e até mesmo aqueles que o conheceram mas os desprezavam, hoje ganham a vida em cima da imagem desse cidadão. E assim é contado um pouco da vida deste senhor da Serra.

  6. Meu caro Célio,
    Sua narrativa é uma perfeita crônica e bem que poderia ser publicada em um blog ou jornal da região. Casos como esse que você narra com propriedade é que não deixam nossa história/cultura morrer. É isso que eu faço aqui em Dom Joaquim: recupero os fatos que já parecem estar perdidos no tempo e os trago para o presente em forma de crônicas e poesias. Grande abraço!

  7. Muito bacana, é a cara de Minas esse causo!!!
    Parabéns a todos pelo trabalho.

  8. Marcelo de Paula, caro novo amigo!
    Com seu comentário tive que reler o texto e tive saudades daquela época em que o Juquinha aparecia (de vez em quando) aqui em nossa cidade, trazido pelos motoristas das viações que faziam a linha Dom Joaquim/BH/Dom Joaquim. Voltei a dar boas rizadas da minha própria crônica que não deixa de ser um causo. E dos bão, uai!
    Abração mineiro!

  9. Mas esse aí da foto é o Juquinha???? Há pouco tempo fui visitar a estátua dele.

  10. Este aí da foto, caríssima Vivian é o Juquinha da Serra, da maneira simples como eu o conheci. Precisava ver que figura simpática.
    Grande abraço e não se esqueça de votar em nosso blog, clicando neste selo dourado acima, à direita, onde está escrito TOPBLOG vote aqui 2012.

  11. Olá Dirceu !! Tive e tenho alguns sonhos na vida; um deles já nem pensava mais em conseguir realizar por questões de saúde mas, surpresas acontecem e estando em BH para passar uns dias com a filha que aí mora, fui convidada por um amigo querido que é biólogo e prof. da UFMG para um passeio na Serra do Cipó, sabedor do meu sonho e das dificuldades físicas, planejou o passeio visando a menor dificuldade para a caminhada e eu pudesse fazer o que mais queria: fotografar na dita Serra. Que MARAVILHA meu caro, aquele lugar é um templo sagrado da natureza; conhecer as histórias do Juquinha foi outra coisa muito boa e foi isto que me fez chegar ao teu blog. Parabéns pela crônica e como disse alguém é realmente a cara de Minas. Me fez pensar em quantas figuras (históricas, folclóricas) tivemos aqui em nossa cidade (Cabo Frio) e que ninguém ainda contou suas histórias. Estive agora em setembro lá e já penso em voltar para continuar ouvindo histórias e fazer meus registros fotográficos. Parabéns.

  12. Caríssima Zenilda,
    Que lindo o seu comentário, que mesmo me parecendo que você não gozando de boa saúde, tem uma cabeça jovial e que se interessa por tudo que anda acontecendo ao seu redor.
    Realmente, a Serra do Cipó é encantadora! Meu município, Dom Joaquim, pertence ao Circuito Turístico Parque Nacional da Serra do Cipó, pela proximidade da mesma e por estarmos na “descida” da Serra do Espinhaço, onde a Serra do Cipó está encravada.
    Eu tive o privilégio de conviver bastante com o Juquinha e daí aquela crônica que hoje está no meu livro “Palavras Lavradas”, com outras 42 crônicas e outro tanto de poesias.
    Minhas crônicas são mesmo de resgate da cultura de nossa gente, são causos, são pessoas interessantes que já andavam perdidas no tempo que eu consegui recuperar. Mas, não parei aí, não! Estou quase lançando o segundo livro de crônicas e poesias com o mesmo objetivo. Recuperar uma cultura quase perdida; nossas comidas típicas, nossas cantigas, nosso folclore, nossos antepassados e por aí vai…
    Grande abraço para você e que voltemos a nos falar de novo.
    Que Jesus a abençoe com muita saúde e paz!

  13. Parabéns Dirceu, eu tive o prazer de conhecer o Juquinha, comecei a ir a Serra do Cipó com 11 anos, e até hj eu vou, seja na minhas férias ou feriado ou um simples feriado.

    • Sei tantos casos do Juquinha, caro Geraldo que ficaria aqui uma semana inteira falando sobre ele.Depois farei nova crônica sobre o nosso Juquinha da Serra.
      Grande abraço.

  14. Meu Deus, tanto é o meu encantamento por esta região, tanto que já me peguei pensado em, como seria? Viver como o Juquinha. Ser você mesmo, contemplar o nascer e o por do sol, a silhueta das montanhas, o final da estrada que corta as montanhas, enfim tudo isso sentado na beira da pedra ou na porta de algum comércio com pessoas simples, batendo um bom papo e o que é melhor. Sem hora e sem muita tecnologia. Vou agora ligar para minha esposa e combinar este passeio. Serra do cipó. Lá vamos nós mais uma vez. Eu que sempre vou à conceição e Itambé, a trabalho vou agora á passeio com minha esposa.

    • É isso aí caro Adriano! Deixei minha vida corrida do Rio de Janeiro já há 25 anos e retornei a Dom Joaquim e… daqui não saio, daqui ninguém me tira (como na música de carnaval). A Serra do Cipó é tudo de bom mesmo e nossa região é linda por natureza.
      Grande abraço e que Jesus o abençoe!

  15. Conte mais causos, esse ficou muito bom, se tiver do Taquaraçu, melhor ainda.

    • Nossos causos vão saindo em crônicas que ouvimos de nossa gente da região e até mesmo de alguns que aconteceram conosco. Outros causos virão, com certeza.


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