Blog do Dirceu Rabelo

A JARDINEIRA QUE TRAZIA O DOCE CHEIRO DA CAPITAL MINEIRA

A JARDINEIRA QUE TRAZIA

O DOCE CHEIRO

DA CAPITAL MINEIRA.

 Dirceu Rabelo

 

Nunca me esqueci do cheiro que a jardineira que fazia a linha Dom Joaquim – Belo Horizonte trazia lá da capital. Era um odor especial, marcante e eu só fui decifrá-lo, quando conheci BH e pude então conhecer todos os seus componentes, ou as diversas “nuanças” que formavam aquele perfume estranho, mas gostoso que lembrava a capital mineira para mim, menino de sete anos de idade.

A jardineira trazia de Belo Horizonte, além de passageiros e malas, um perfume que começava com as dinâmicas notas do toque exótico do roxo papel de maçãs argentinas, conotações da alquimia do óleo diesel “in natura”, um amadeirado de monóxido de carbono e para completar a composição, a viva acidez do vômito seco em sua lataria. Era esse o doce cheiro da capital. E eu o achava o máximo!

Ela chegava dia sim, dia não da capital mineira. Como era só uma jardineira, no dia que ela vinha logicamente, ela não ia para BH.

A linha pertencia a João Fidico e levava o número 008 e se não me falha a memória, que já anda pior do que a jardineira, a “empresa” se chamava Viação São Domingos. Poderia até ter um lema: a viação de um só veículo!

Pai João era o cobrador e a alegria dos passageiros nas idas e vindas pelos caminhos tortuosos, enevoados e misteriosos da Serra do Cipó. Morava na Lapinha, grande namorador, era filho de dona Maria Joaquina e morreu cedo: doença de Chagas! Ele descia da Lapinha todos os dias de saída da jardineira, assobiando belas músicas que embevecia a todos que o ouviam. E a viagem começava cedo: 6h da manhã e a chegada à capital nunca acontecia antes das três da tarde. Na volta o mesmo suplício, e a chegada aqui também acontecia das três da tarde até a boca da noite. Quando chovia, era o caos!

Lembro-me pouco da jardineira chegando pelo Gaia, mas quando ela passou a chegar pela Rua Nova, a estrada nova já ficou mais confiável e a empresa tornou-se mais rentável. Com isso, nós, carregadores de malas, começamos a faturar também.

Naquela época, 1954, Dom Joaquim era um paradeiro só – e não adianta rir, porque era muito pior do que hoje! – e a chegada da jardineira era uma festa, um acontecimento.

O ponto de parada era na porta da Pensão do Clóvis, na Praça Cônego Firmiano, desde os tempos da jardineira de madeira que pertencia ao Faninho; depois, passou a parar em frente a Pensão Dodô, ali onde hoje funciona a padaria do Lúcio Sarué.

Quando ela descia pelas ruas ainda sem calçamento de Dom Joaquim, trazia uma nuvem de poeira atrás de si, além de um tornado de meninos esbaforidos. Alguns, mais atrevidos, pegavam rabeira na escada da jardineira que permitia a subida para o bagageiro, em cima do veículo.  Antes mesmo de parada a jardineira, nós já estávamos do lado de fora fisgando os passageiros para carregar suas malas e ganhar alguns trocados que reverteriam em ingressos para o cinema e guloseimas.

Tinha aqueles passageiros generosos, os preferidos por todos os meninos carregadores, por serem bons nas gorjetas: Dr. Ary, Sr. Juquinha, Tio Walney, Sylvio Gomes e o pessoal que vinha do Rio de Janeiro; esses já vinham abonados e na maioria das vezes, bêbados. Nem sabiam o que estavam pagando para a gente.

Hoje, nossos carregadores de malas são doutores, empresários, fazendeiros, espíritos desencarnados, etc. E um daqueles meninos insiste até hoje, em carregar as malas da recuperação da cultura dom-joaquinense… Foi o último louco que restou da turma.

A ponta do pirulito da “Savassi” mostra o casarão, onde na década de 1970 nós, estudantes de Dom Joaquim morávamos em uma “república”.