Publicado por: Dirceu Rabelo | 11/04/2011

O ALVOR DA ALMA DE DONA MARIA SUJA

O ALVOR DA ALMA

DE DONA MARIA SUJA.

Dirceu Rabelo

 

Nossa comunidade, não por malícia, mas para modo de identificação, próprio da gente do interior, a apelidou de Maria Suja. Mas ela nasceu mesmo no Estado do Espírito Santo e recebeu na pia batismal, o nome de Maria Francisca de Oliveira. Ela chegou aqui trazendo consigo uma “escadinha” de seis crianças pequenas, acompanhando um marido carvoeiro, por isso meio nômade, e um inesquecível olhar de resignação, ante ao “fardo” que o Criador lhe entregou para cuidar. Sua humildade franciscana escondia grande generosidade e amor à sua prole, três meninos e três meninas, com fortes traços indígenas.

Seu marido, José Cassiano Barbosa, que sempre gostou de uma boa pinga, também capixaba, mudou-se do Espírito Santo com a família para Teófilo Otoni; daí para Governador Valadares, onde enterraram um filho ainda pequeno. Seguindo viagem, passaram por Guanhães, depois Carmésia e por fim, Dom Joaquim, o pouso final.

Aquela mulher pequena, franzina e de pele ressecada, não tinha o menor cuidado consigo mesma. Em compensação, enquanto seus filhos estavam na escola ou dormindo buscava nos pastos, gravetos e esterco para vender, levando na cacunda o filhinho mais novo, ou esmolava de casa em casa, rogando ajuda em alimentos ou roupas para os pequenos. Não deixava faltar nada aos filhos, principalmente comida farta. E não havia ninguém que lhe negasse ajuda, por saberem se tratar de mulher trabalhadora, honesta e mãe virtuosa.

Percebia-se que ela não queria que os outros filhos tivessem o mesmo destino daquele que ficou em Governador Valadares. Ela devia saber que a falta de uma alimentação mais consistente o levou mais cedo. E como lutava a pequena grande mulher!

Dava dó ver aquela mulher de baixa estatura, uma Madre Teresa de Calcutá maculada, escondida debaixo de um enorme feixe de gravetos e o equilibrando com uma rodilha muito maior que sua pequena cabeça. E saia assim pela cidade a oferecer a lenha miúda, que na falta de dinheiro era trocada por alimentos.

Eu, menino naquela época, era muito amigo de seu filho Geraldo “Bolinha” e passava às vezes em sua pequena casinha na descida da Rua Guanhães, no Alto do Cruzeiro, e testemunhei o quanto ela se esmerava para dar de comer às crianças.

Bolinha, (por ser gordo como uma bola), estava sempre às turras com o irmão Osmar que tinha o apelido de “Paia Roxa” e chegavam a rolar na poeira, aos socos e pontapés. Dona Maria, na sua calma e abnegação materna os separava e aconselhava:

– Irmãos não podem brigar! Irmãos têm que ser unidos.

Hoje, é o próprio filho, Geraldo Bolinha quem conta isso, com os olhos marejados de saudosas lágrimas: “Mãe nunca bateu em nenhum de nós, nem gritava; só aconselhava”.

O lenço na cabeça e a saia longa sempre muito sujos identificavam aquela guerreira baixinha, que hoje nos vem à lembrança, digamos que por uma ordem Superior, para resgatarmos a memória de um espírito que passou por Dom Joaquim sem muito alvoroço, mas que nos deixou um grande legado de bondade, amor e desprendimento; desapego total das coisas materiais.

Assim como Dona Maria chegou a Dom Joaquim, ela partiu; sem muito alarde. Aliás, minto: eu disse que ela chegou suja, mas quando se foi, deixou aqui seu corpo material de aparência descuidada e partiu de alma lavada, pura, para o Plano Espiritual, para mais perto de Deus. Chegou lá, como Dona Maria límpida, translúcida, quase uma estrela, irradiando luz e com a paz dos espíritos que cumpriram bem a sua missão neste orbe de provas e expiações.

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Responses

  1. Caro Dirceu,
    Não me contive, ao ler a sua descrição da “Dona Maria Suja”. Incrível a sua capacidade de retratá-la, não apenas sob o ponto de vista físico, mas também da subjetividade daquele olhar. Por alguns instantes, a vi carregando os tais gravetos. Não me lembro de ter visto olhos mais eloquentes e puros. Eram, para mim, ainda criança, como que uma resignação e aceitação de um sofrer, contraposto por certa pureza, característica de poucos. Parabéns, pelo texto e pela lembrança.

  2. Amarildo, dileto primo e amigo. Quando faço minhas crônicas e poesias, espero os primeiros comentários, para sentir se fui compreendido em meus sentimentos e na mostra de valores ali deixados. Como é bom saber que alguém de sensibilidade comprovada deu seu aval àquilo que escrevemos, quando buscamos uma personagem que até agora era vista como mais uma mulher pobre que passou por Dom Joaquim. Não! Ela não foi somente mais uma. Algo me dizia, e minha consciência (será só ela, ou algo superior?) me cobrava isso, que ela foi maior, um espírito sublime escondido entre farrapos a nos dar exemplos.
    Seu texto, sobre a aceitação dela ante ao sofrimento, poderia muito bem fazer parte da crônica de tão belo, sensível, reconhecido. Por que não escreve também? Abração do primo.


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