Publicado por: Dirceu Rabelo | 09/06/2011

ZEZINHO: UM MAIA QUE QUERIA SER JOFRE GONÇALVES

ZEZINHO: O MAIA QUE QUERIA SER JOFRE GONÇALVES

Dirceu Rabelo

 

A voz chorosa de Nelson Gonçalves encharcava cada cômodo da casa de Zezinho Maia, tornando-a mais solitária e estranha ainda, com a interpretação de “A Volta do Boêmio”. Zezinho havia comprado a radiola há pouco tempo e dependurava nela vários long plays do cantor e se deliciava com as músicas de fossa terrível, decorando todas as letras e músicas; letra por letra, nota por nota.

Sua casa ficava na Rua Conceição, naquela época, 1960, conhecida como Rua do Barro de Cima e a vizinhança teve que se acostumar a ouvir o cantor de “Maria Bethânia” e “Deusa da Minha Rua” dia e noite. Zezinho começava a dar sinal do mesmo mal que acometera sua jovem mãe. Ele tinha também surtos de Éder Jofre e achava-se com o corpo “definido” a ponto de tirar a camisa e mostrar-se defronte ao espelho em gesto narcisista, perguntando se estava ficando tão forte quanto o lutador de boxe, campeão mundial à época.

Ele cometera, posso dizer assim, a infelicidade de se apaixonar pela moça mais bonita e desejada de Dom Joaquim, daquela época. Como ele não tinha nenhum dos atributos que pensava ter, não foi correspondido. Dançou bonito! Não bebeu, não fez escândalo, nada; somente ficou louco.

Sua mãe, dona Genoveva, que as pessoas chamavam de Veva, casou-se com senhor Venda Maia (Vandelino Ferreira Maia), fazendeiro rico, mas, quarenta anos mais velho que a jovem moça de família humilde. Contam que a jovem foi obrigada a casar-se com o velho fazendeiro, mas lá no íntimo, já tinha um amor, jovem da idade dela. A família a obrigou a casar-se por interesse. Coisas da época!

Ela deu ao seu ancião marido dois filhos e um fardo: Bento e Zezinho, os filhos; e a loucura. Essa foi chegando aos poucos e tomou conta de seu espírito entristecido.

Casaram-se e foram morar na fazenda do velho no São Thomaz, mas com a doença da jovem esposa, Sô Venda, como era conhecido, mudou-se para Dom Joaquim e comprou o chalé de Chico Félix que ficava entre o hospital e a residência de senhor Lili. 

Dois fatos interessantes dessa residência do Sô Venda, pai do Zezinho, é que no sobrado tinha uma carcaça de Ford 29 onde os meninos da rua se divertiam brincando de dirigir. Só que ali no que sobrou do velho carro, existiam vários ninhos de galinha e muito piolho e pulga, mas, como carro era coisa rara naquela época, então valia a pena o sacrifício, para as brincadeiras dos meninos mais velhos de Duca Costa e dos primos Hélio e Celso Pires. Outro fato interessante é que da Barragem saiam dois regos de água que moviam três moinhos de fubá, sendo um do lado de lá e que pertencia ao senhor Inhozinho Ponte Nova e outro do lado de cá, que passava debaixo da Ponte Davi e depois ali pelo fundo do futuro hospital (área de camping), e movia os moinhos de Zé Belgrano e o do Sô Venda Maia.

Contam que a Dulce do Gaia dava aulas na escola aqui na cidade e que certo dia, vindo da fazenda para o trabalho, dirigindo o Ford de Dr. Ary, numa barbeiragem, capotou com o veículo dentro do rego dos moinhos. Ficou só nos danos materiais e muita lama pelo corpo.

Mas, voltemos ao Zezinho e suas manias de Nelson Gonçalves e Éder Jofre. Não se sabe se Zezinho já era gago, ou se começou a gaguejar depois que soube que o cantor de sua preferência também era gago. E ele gaguejava por prazer e gostava de ser gago.

Alguém, sem ter o que fazer, mesmo porque Zezinho era macho, frequentador da zona da cidade, arranjou um apelido para Zezinho: Totita! Ele detestava tal apelido. E por que Totita? Ninguém sabe. Mas Zezinho já estava ficando totalmente lunático a cada dia que passava; ninguém conseguia notar isso e viam suas excentricidades com certo desprezo.

Só que de repente ele começou a ficar sem dormir. E zanzava pelas ruas da cidade noite e dia; dia e noite sem se alimentar. Aí a loucura o dominou. Bento, seu irmão que nessa época morava em Belo Horizonte o levou para a fazenda e lá ele morreu. O povo que gostava de falar deu várias versões para a morte prematura dele. E Bento ficou com a fazenda; só para ele, único herdeiro.

Passados poucos anos, o Bento também morreu. Mas Zezinho ficou. Ficou no vinil riscado, com a voz de Nelson Gonçalves que ele tentava de todas as maneiras imitar. Ficou nos músculos de Éder Jofre que ele invejava ter, nos momentos narcisistas em frente ao espelho encardido de seu solitário quarto. Ficou na lembrança que alguns, assim como eu, têm dele, de uma pessoa que não fazia mal a ninguém. Era somente um menino que não queria ser Maia somente. Quem sabe, José Ferreira Maia Jofre Gonçalves? Seria a glória… Ou Alice, a razão involuntária de sua demência!

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