Publicado por: Dirceu Rabelo | 25/06/2011

NERINHO E NEROSO: FRATERNO AMOR MOVIDO A ÁLCOOL

NERINHO E NEROSO: FRATERNO AMOR MOVIDO A ÁLCOOL

Dirceu Rabelo

 

Primeira cena que me vem à cabeça, quando me lembro da inseparável dupla Nerinho e Neroso, é a de um deles escornado e o outro ali, sóbrio, de prontidão, tomando conta do irmão sem condições de se levantar, pelo estado lastimável de embriaguês. Nunca, em época alguma, os dois estiveram bêbados ao mesmo tempo.

Nerinho era falante, conversador até demais, enquanto o irmão mais velho, Neroso, era caladão, monossilábico e – dizem – mau feito uma surucucu cruzeiro. Este último vivia de paletó e sempre descalço, e segundo as más línguas, atrás da vestimenta social estava escondida uma enorme faca peixeira. Nós, meninos fazíamos a maior fuzarca com o Nerinho, mas tínhamos o maior respeito pelo Neroso, pra não dizer cagaço, medo brabo.

Eles eram unha e carne, mão e luva, almas gêmeas, e devem ter recebido da Espiritualidade Maior quando nasceram, o compromisso de serem unidos “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza” e eles acrescentaram por conta própria: “na cachaça e no torresmo”, até que a morte nos separe.

Eles, embora fossem trabalhadores e pegassem no pesado mesmo, em serviços como rasgar e destocar brejos, que no meio rural é considerado o supra-sumo do calo na mão, comiam qualquer coisa que lhes era oferecido. Mas, agradar-lhes era fácil; uma lasca generosa de angu, uma verdura qualquer picada e refogada, feijão inteiro e uma carne seca gorda com quiabo ou ora-pro-nobis e pronto! Cominam de arregalar os olhos. Ah! Um “quarto” de pinga para cada um, por favor, pois sem ela a comida nem descia; o fígado não aceitava mesmo! Questão congênita…

Numa festa de São Domingos acompanhei a compra deles na venda de Orígenes, para começar a farra. Eles contaram as poucas moedas que tinham no bolso e compraram uma garrafa de álcool marca Paraguay e um quilo de toucinho salgado. Pediram ao Orígenes um litro emprestado e encheram-no até a metade de água e ali misturaram o álcool 90°; lavaram o toucinho para retirar o excesso de sal e fizeram um foguinho debaixo da gameleira na pracinha em frente à venda. Ali, assando o toucinho num espeto de pau, tomaram o litro de álcool batizado e foram comendo o torresmo que ia sapecando. Programaço!

Nerinho tinha a mania de chamar todo mundo de “carandu” que em nossas pesquisas da língua tupi, chegamos à conclusão que quer dizer “barulho oco”.

Agora, digam-me estupefatos leitores, onde Nerinho foi buscar tal verbete que não se encontra nem no livro “Denominações Indígenas na Toponímia Carioca” de J. Romão da Silva que o autor autografou para Sebastião Prata, o Grande Otelo, e que hoje faz parte “milagrosamente” de minha pequena biblioteca?

Bem, deixemos nossos delitos de lado, que eles são muitos e voltemos à nossa crônica etílica.

Eles trabalharam para todos os fazendeiros da região e foram verdadeiros “hippies” na sua maneira livre de viver. Nenhum dos dois quis se relacionar com mulher alguma; não fixavam residência em nenhum lugar; viviam suas vidas sem dar satisfação a ninguém, pois não tinham patrão fixo. Pegavam um serviço e quando este acabava simplesmente partiam para outro, ou ficavam por uns dias em Dom Joaquim farreando.

Saiam pelas estradas a pé e nunca pegavam carona e nem as aceitavam se alguém lhes oferecesse. Era muito comum irem a pé até Vespasiano, somente para trabalhar para meu tio Bodé e ali ficavam meses. Quando acabava o serviço de meu tio, faziam outros serviços de capina para outras pessoas e depois voltavam a pé, ao ninho (Dom Joaquim), atravessando toda a friagem e solidão da Serra do Cipó.

O caladão do Generoso morreu primeiro e ficou o Generino, com um familiar, mas parou com a bebida e com o falatório. A vida tornou-se sem sentido pela falta do irmão que o completava. Afinal, a morte os separou. Dizem que ainda está vivo. Será que isso para ele é vida?    

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Responses

  1. Nossa quando era criancinha lembro muito vagamente dos dois realmente lembro que eram inseparáveis, muito bom realmente saber um pouco da história dos dois…

    • Blz Dirceu tô aki de novo…Nerin, Neroso; grande dupla folclórica; me lembro bem deles!! Irmão de “Dom Cipó”, como eles mesmo diziam com orgulho. “Carandú barriga verde” era como chamava-nos…Nerim bêbado falava realmente pelo cotovelos, quando seu irmão Neroso ia dizer alguma coisa retrucava Nerim: “Cala boca irmão cê já falou demais”…hehehe…Saudades da infância. Valew!

  2. Oi Júnior! Foi difícil fazer esta reconstituição da vida dos dois irmãos, Nerinho e Neroso. A família não queria dar informações sobre eles, talvez por vergonha do passado deles; talvez com medo de que eu fizesse chacota de suas vidas boêmias.
    A crônica como faço – já me disseram – é importante, porque ela tem seu lado histórico e jornalístico. Preserva a cultura do lugar e principalmente porque além da publicação aqui no nosso blog que hoje tem 1.600 visitas diárias em média e já passa de 100.000 acessos em um ano e pouco, essas crônicas irão para um novo livro até o final do ano. Aliás, as crônicas e as poesias.
    Grande abraço e obrigado pela força, caro primo Júnior.

  3. Claudinho sumido! Pensei que você nem estivesse mais navegando nas águas “turvas” do meu blog. Eu havia me esquecido deste detalhe do Nerinho. O pobre do Neroso não falava nada, mas quando indagado de alguma coisa pelo Nerim, era só abrir a boca que este o mandava calar. Nerim era o cão chupando cana, mas dizem que o Neroso é que era o mau…
    Grande agraço, caro amigo!

  4. Ele já é faleceu a mais ou menos uns 5 anos.

    • Obrigado pela informação querida Bruna. Como você mesma leu, nosso objetivo foi deixar guardada uma crônica de dois trabalhadores, irmãos que se amavam muito e que tomavam sua bebida nas horas de folga, mas numa união jamais vista. Que seus espíritos estejam em paz no Plano Espiritual e que Deus tenha compaixão deles para retornem em reencarnações mais tranquilas.
      Fique com Jesus e que ele lhe abençoe!


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