Publicado por: Dirceu Rabelo | 18/07/2011

AI QUE SAUDADES DE PALOMA!

AI QUE SAUDADES DE PALOMA!

Dirceu Rabelo

De uma ninhada de onze pintinhos, de uma de minhas galinhas que eu já tive no meu terreiro, aqui em Dom Joaquim, um deles mostrou-se diferente dos outros. Logo que eu os tirei do ninho onde nasceram, levei-os para um cercadinho com a galinha mãe e num canto coloquei um recipiente raso com água, para eles beberem e não se afogarem e no outro canto, uma caixinha de madeira com ração própria para pintinhos.

Logo que se viram no chão, a galinha chamou os pintinhos para a caixinha de ração e todos correram em sua direção, menos um que ficou batendo cabeça por todos os lados, sem encontrar a mãe e os irmãos.

Começava ali uma pequena história de amor entre aquele pintinho e eu. Alguém sugeriu descartar (matar) o pintinho pelo trabalho que ele, com tal deficiência, me daria. Eu quase “matei” o sujeito pela sugestão incabível. E minha defesa pela vida do animalzinho foi simples: se Deus o colocou em minha vida, foi porque o Criador sabia que eu lhe daria carinho e tudo aquilo que sua mãe, irracional, não poderia dar. 

O começo foi meio complicado para mim e para o bichinho, pois eu tive que dar a ele os ensinamentos de tudo aquilo que sua mãe estava passando aos seus irmãos e não a ele. Quando a galinha chamava os pintinhos para comer, eu batia com um pedaço de pau com pequenos toques na caixinha de ração e fazia o mesmo depois na vasilha de água, até que ele aprendeu os dois caminhos. Até o final de sua vida, aquelas vasilhas permaneceram no mesmíssimo lugar; nem um milímetro fora.

Quando os pintinhos começaram a sair com a galinha para passear pelo quintal, ele permanecia preso tomando sol ou na sombra. Quando começou a crescer, vi que o pintinho era na realidade uma franguinha e foi aí que lhe dei o nome de Paloma. Uma homenagem a uma paixão não correspondida que eu tive no Rio de Janeiro. Nada pessoal…

Quando a galinha largou os pintinhos, ela já era independente e já atendia pelo nome e “se alegrava” quando eu chegava a seu cercadinho, reconhecendo minha voz. Eu fazia carinho nela e meus sobrinhos que ainda eram novinhos, morriam de dó dela e achavam-na a coisa mais linda. E era!

Bom, Paloma, por ser cega, andava meio desengonçada, dando assim uns passos estranhos e com o pescoço esticado para cima. Troço bem gozado, mas bonitinho. Mas ouvia qualquer barulho, por menor que fosse. Eu chegava às vezes bem devagar e ela ficava cabreira e aí eu a chamava bem baixinho:

-Paloma! Paloma!

Ela “olhava” para o lugar onde eu estava. Aí eu jogava uma pedrinha do outro lado do cercado e ela se virava depressa para lá. Eu morria de dó dela. Quando eu começava a rir ela corria para o meu lado e encostava-se em mim e, com certeza sentia-se segura. Um amor!

Certo dia, Paloma arrumou o maior estardalhaço no galinheiro e como ela sempre esteve em silêncio sepulcral, estranhei e corri lá para ver o que havia acontecido. Talvez algum animal tivesse se aproximado… Qual o quê! Ela havia botado o seu primeiro ovo; a coisa mais estranha do mundo. Aquilo mais parecia um croquete; nunca um ovo. Tanto que ninguém quis comê-lo. Ela ali com o lho arregalado, como se o céu tivesse desabado. Fiz-lhe um carinho, dei-lhe um abraço e disse-lhe ao pé do ouvido que ela havia colocado o ovo mais lindo do mundo. Cruz credo! Mas ela deve ter entendido, pois continuou botando seus croquetes e fazendo estardalhaços que me emocionavam.

Foi aí que me lembrei de que ela deveria ter contato com o galo para cruzar com ele. Afinal de contas, ela já não era mais uma mocinha. Eu a coloquei no galinheiro com as outras galinhas, mas as “penosas” começaram a bater freneticamente nela. Para que a “coisa” rolasse, eu tive que colocar as galinhas para fora do galinheiro e deixei só ela e o galo junto. Aí sim, rolou! Daí em diante eu já abria a porta do seu cercadinho e o galo fazia a festa com a ceguinha.

Quando as galinhas se acostumaram com ela, eu a deixava solta dentro do galinheiro e aí ela descobriu a panelona debaixo de um pé de limão galego, onde eu colocava água e servia de bebedouro. Ali, ela bebia sua água tranquilamente.

Só que num dia quentíssimo de janeiro, eu cheguei ao galinheiro e a procurei, chamei por ela e nada. Procurei fora do galinheiro, pelo quintal e nada também. Voltei ao galinheiro e lá estava ela, quietinha, deitada como uma madama dentro da grande panela de água. Ela tinha feito do bebedouro sua banheira de hidromassagem. Achei aquilo a coisa mais gostosa que um animalzinho sem recursos, deficiente, poderia fazer. Afinal, ela se virou sozinha, foi à luta para tornar a sua deficiência menos dura.

Paloma continuou me proporcionando alegrias, ensinamentos e botando ovos feios, com a casca mole que ninguém tinha coragem de comer e morreu de velhice. E eu, ali do seu lado cuidando dela. Parece coisa de poeta, de cronista, mas é a pura verdade. Paloma existiu. Aliás, elas existiram: a galinha e a minha paixão não correspondida, que também batia suas asinhas. Ah, essas fêmeas…

NR) Esta crônica foi feita para homenagear o Grupo “EU AMO DONJOKA” no Facebook.

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Responses

  1. Dirceu…que lindo texto…você foi de uma clareza ímpar digno de um autor conceituado…adoro autores que escrevem com a alma com riquesa de detalhes mas sem enfeitar demais, tornando o texto monótono…meu livro de cabeceira, embora muito antigo, é Meu Pé de Laranja Lima (Mauro de Vasconcelos) e seu texto me fez lembrar de alguns trechos…esta simplicidade na escrita com a riqueza das palavras e colocações me encanta…me encanta muito. AMEI de verdade.

  2. Oraldinha, minha linda! Seu carinhoso comentário me emocionou mais do que as lembranças da “Paloma” que tive no sábado à noite, quando escrevi esta crônica. Li “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, duas vezes e vi a novela também. É um autor que me emociona muito, todos os seus livros são de uma emoção encantadora. Ele já desencarnou e infelizmente não chegou a fazer parte da Academia Brasileira de Letras, mas foi um campeão de vendas. O leitor deu a ele a resposta que todo escritor precisa.
    Meu primeiro livro, “Palavras Lavradas – Crônicas e Poesias” já está chegando por aí. O segundo, ainda sem nome, já está na fôrma…
    Beijão saudoso e até a Festa de São Domingos!

  3. Obrigada, Dirceu, voltei à minha infância e lembrei da minha galinha preta que minha mãe degolou pro almoço sem ouvir as minhas súplicas, sem respeitar as minhas lágrimas.
    E ela ficou andando um tempo enorme, sem cabeça e eu chorava e chorava e minha mãe dizia que ela não morreria enquanto eu não parasse de chorar. Corri pro meu quarto e me enfiei debaixo da cama de onde não saí o dia inteiro. Impossível esquecer um sentimento desses…

  4. Marilia, como somos parecidos minha garota! Até em nossas histórias… Minha mãe também matou uma franga que eu ganhei, sem me consultar e eu entrei em pânico quando a vi “descabeçada”, zanzando pelo terreiro de casa. Até hoje, toda a família lembra do fato e morre de rir, menos eu. Traumático demais da conta. Sou muito ligado aos meus animaiszinhos.
    Beijão e mais uma vez, grato pela força ao nosso singelo blog.

  5. Li … me emocionei e morri de saudades de Paloma também. Era uma galinha humanizada e só quem conheceu sabe o quanto foi especial… ainda mais pq nessa pequena existência, teve o auxilio de Dirceu Rabelo.. um amante de animais, muito sensível e dedicado. Para ela, com certeza foi muito importante esse convívio, como tenho certeza também de sua importância para Dirceu.
    Padin Dirceu… Com todo respeito: VOCÊ É FODA!!!! Das pessoas que eu mais admiro nessa vida. Um exemplo pra todos nós, seus sobrinhos. Devo muito à você, pela “parte boa” do que sou. AMEI o texto da Paloma… TE AMO! Saudade!!!

  6. Deixe-me começar pelo final de seu comentário: Quem disse que você tem alguma “parte ruim” relevante? Somos espíritos em depuração, mas nem por isso somos ruins. Somos, Keilla querida, espíritos muito, mas muito irmanados já há muitas reencarnações. Somos muito parecidos.
    Deixe-me te contar a mais nova: outro dia, Deus mandou lá para casa uma gatinha de mais idade, totalmente perdida de seus donos, ou mesmo abandonada, uma gracinha, mas muito magra e acabadinha. Estou cuidando dela e tendo que tratá-la bem longe dos olhares de Tutuspléh e Chimbica (filha) que estão “ardendo” de ciúmes. Dei-lhe o nome de Juliana, pois ela apareceu lá em casa no dia 1º de julho e já é meu novo xodó e ela morre de amores por mim. Fazer o quê? Quem nos escolheu para cuidar dessas criaturinhas aqui na terra foi o “Homem lá de cima”. Enquanto vivermos, estaremos cercados deles. Quando voltarmos a reencarnar, traremos novos meios de tratá-los melhor ainda.
    Paloma foi sim, muito especial, tanto que mereceu uma crônica, logo que você citou o nome dela lá no Facebook. Fiquei o sábado à noite em casa e… confesso que derramei algumas lagrimas criando esta crônica, que ofereci ao Grupo “Eu amo DONJOKA”.
    Um beijo de quem te ama e admira muito. Seu “padim”!!!


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