Publicado por: Dirceu Rabelo | 21/08/2011

O PRIMO ESCOLHIDO PARA CICERONE

O PRIMO ESCOLHIDO PARA CICERONE

Dirceu Thomaz Rabelo

 

Naquelas férias de fim de ano, não passamos de passagem pela fazenda de nossos avós maternos, João e Maria da Piedade, como das outras vezes. Ficamos ali, na fazenda do Paiol Queimado, Itamar, Luiz Mário, Antônio Paulo e eu. Nossa vontade mesmo era seguir direto para o Candonga, fazenda dos tios Antônio e Assunção, perto de Gororós e depois passear pela fazenda da Cachoeira dos tios Zé Juca e Iaiá. Alguma coisa estava acontecendo, mas não sabíamos do que se tratava. Tratamos mesmo foi de tomar banhos demorados nos poços do córrego que passava nos fundos da fazenda, comer frutas, muitas frutas e brincar de carrinhos de bois de sabugos de milho com rodas de cuia.

Tratávamos nossos avós de “pai” e “mãe”. Era um costume da família, que começou com os netos mais velhos e continuou com os mais novos e toda a geração de netos – e até os bisnetos que conviveram com eles – os trataram de “pai” e “mãe” em vez de vovô e vovó. Somos da família Papula, com muita honra! Mas, aí já é caso para outra crônica.

Mas, não demorou muito e chegou à fazenda o primo Fernando, filho dos tios Virgílio e Maristela. E nossos dias ali foram de muita algazarra em pescarias de acarás beiçudos, mandis barrigudos, cachorras de bocas enormes e outros peixes fáceis de fisgar. Terminada a pescaria, o banho no poço no moinho era a pedida e depois, o pé de jabuticaba nos chamava para suas galhas cheias de bolotas pretas de mel. À tardinha, ainda sobrava tempo para uma caçada de preá e saracura no brejo, dentro da manga dos porcos. Minha avó não gostava dessas caçadas; nem eu, que ficava só olhando. À boca da noite era hora de comer os peixes que tínhamos apanhado.

Certo dia, e aí não haviam passados nem dez dias das férias, chegou o Luizinho com o Jipe de Tio Antônio para nos buscar. Ficamos todos muito ouriçados com a idéia de, enfim, irmos para o Candonga. Minha avó me chama num canto e me informa que eu ficaria para fazer companhia para o primo Fernando. Comecei a entender o porquê da parada estratégica no Paiol Queimado.

– Mas, por que eu? Perguntei à minha avó.

– Porque você tem a mesma idade dele e eu te escolhi e pronto! Respondeu ela resoluta.

Fiquei no Paiol Queimado com o Fernando e os fedazunhas foram para o Candonga me sacaneando de dentro do carro, na saída.

Embora eu quisesse mesmo ir para o Candonga, os dias que passamos, Fernando e eu, juntos na fazenda de nossos avós, foram muito importantes para nos unir. Fernando foi um primo que sempre morou em cidades distantes de Dom Joaquim. Nasceu e morou até os doze anos em Aiuruoca; depois, mais dois anos em Guanhães, e por fim a família se mudou para Montes Claros, onde Tio Virgílio, seu pai, que era Inspetor de Fiscalização Estadual viveu até desencarnar. Fernando e suas irmãs tiveram muito pouco contato conosco e com seus outros primos.

Com mais uns quinze dias de férias de muitas estripulias e brincadeiras, ele foi embora para Dom Joaquim e depois para sua Aiuruoca e eu fiquei no Paiol Queimado, esperando a hora de ir para o querido Candonga. Mas nada de gente para me buscar. E eu era muito pequeno; tinha uns nove anos, talvez.

Como tinha medo de dormir num quarto sozinho, minha avó me colocou no quarto da varanda com Luiz e Chifrinho, dois rapazes criados na fazenda. Antes, eles contavam casos de assombração em volta da fogueira que faziam no curral para os cachorros e eu já ia dormir me borrando todo. Lembro-me que eles dois esquentavam alguma coisa alcoólica numa caneca e bebiam e riam como nunca. E pediam para que eu não contasse para minha avó. É lógico que tinha treta ali! E devia ser bom, pois deitavam e dormiam rapidinho e eu ficava ali esperando os capetas e assombrações chegarem. E os pernilongos chupando meu mirrado sangue e fazendo seresta no meu infante ouvido.

E os dias das férias do quente dezembro passando céleres.

E tome chuvas torrenciais. Córregos cheios, pontes caídas… Um dilúvio. Nem cavalo dava para vir me buscar; era um perigo. E a chuva não dava trégua.

Conformei-me com a situação e comecei a folhear as revistas de minha avó e deparei-me com as palavras cruzadas, com as poesias dela e deu no que deu. E ela ali toda orgulhosa do neto leitor assíduo, me ensinava a declamar, fazer rimas… As férias acabaram e fiquei poucos dias no Candonga. Em compensação, nascia ali, não sei se por destino ou desatino, um menino que gostaria por toda a vida de escrever e ler, e ler e escrever, assim como sua avó, Maria da Piedade Teixeira, poetisa das boas.

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Responses

  1. E estas férias meio inesperadas, uniu primos e surgiu uma bela amizade. Certamente, Fernando está precisando do carinho seu, pois, está vivendo um luto dolorozíssimo pelo falecimento da filha, Yasmin (19) que ocorreu no dia 10 de setembro (semana assada), em acidente no quadricículo, em sua fazenda em Montes Claros. Contate-o… Ele precisa do carinho de todos nós.

    Att
    AMIGA

  2. Amiga querida! Nosso amor fraternal é tão grande que sofri com ele durante uma semana em orações, pois era impossível dizer-lhe algo sem que o choro tomasse conta de nós dois. Busquei na Doutrina Espírita aquelas palavras de consolo que eu poderia lhe passar e que Jesus nos deixou, nos livros de Allan Kardec. Quando me vi preparado, uma semana depois, fiz-lhe uma ligação em que pude mostrar-lhe que Deus não é injusto e que a desencarnação da querida Yasmin não foi prematura, mas chegou no seu tempo certo. Ela havia cumprido sua jornada com galhardia, generosidade, nesta sua curta reencarnação junto ao caro Fernando, como sua filha adorada.
    Mostrei-lhe que Deus, em Sua Infinita bondade, com certeza daria a ele, ainda nesta vida, nesta reencarnação, mais uma chance de conviver com a sua querida Yasmin, já agora como uma linda neta, ou bisneta; e ele a reconhecerá. O seu coração de pai ficou mais aliviado.
    Mostrei-lhe ainda, que a desencarnação é para nós espíritas, como uma longa viagem terrena, só que na viagem daqui na terra você sente saudade, mas é uma saudade doce, que você sabe que um dia o ente querido (em carne e osso) retornará. Na desencarnação o ente querido parte e a saudade fica, mas ele retorna em outro corpo e quase sempre no mesmo seio familiar. Se o familiar desencarna também, e se Deus permitir e se os dois fizeram por merecer, já há um encontro entre eles no Plano Espiritual e lá podem até conviverem por longo tempo. E isso, sem contar que durante o sono, depois de um certo tempo do desencarne de Yasmim, o querido Fernando terá sonhos com ela que serão encontros, mas encontros mesmo que aliviarão sua dor.
    Tudo isso eu disse a ele e parece-me que aliviei um pouco a terrível dor que agredia sua alma, seu espírito.
    Terminei por dizer-lhe que considerasse que Yasmin estaria fazendo uma viagem à China distante para estudos e que iria demorar um “pouco”. A saudade iria apertar, mas ela retornaria e que confiasse no Pai Celestial que nos ama muito.
    Um abraço fraternal amiga. Que Jesus a abençôe por seu ato amigo e generoso. Um beijo na sua alma!

  3. Dirceu

    Fico feliz e aliviada em saber que suas palavras o confortaram um pouco. Moro em BH, mas, na data da Missa, etava em Montes Claros. Fui, mas, não tive coragem de me aproximar, pois, não tinha o que dizer… Principalmente a Yasmin era amiga da minha filha. Fernando contemporâneo da minha Mãe (Gláucia), amigo meu (não muito próximo) e seu filho, Daniel, é um irmão pra mim. Tanto Yasmin qto o Dan, herdaram o carisma e simplicidade do Fernando que, para mim, tem luz especial. Não sei o pq penso isto, mas, sei que ele tem. Eu vejo…

    Não me lembro como encontrei seu blog, mas, foi nas madrugadas, ainda em choc, procurando alguma notícia do Fernando, já que não consegui falar nada. Permaneço de longe, porem, dedicando muitas orações a ele, pra que algo de muito maravilhoso se manifeste, de forma a diminuir, um mínimo que seja a sua dor.

    Abraços

    PATRÍCIA LEÃO

    Obs: Não assinei anteriormente pq não sabia se responderia e não parecer efusiva.

  4. Patrícia, caríssima irmã e amiga,
    Você fez o certo e Jesus a encaminhou para nosso blog, onde teve oportunidade de se manifestar com sua caridade cristã em favor do caro Fernando. Suas orações, com certeza estão fazendo um bem enorme a ele e à Yasmin.
    Há três dias ele me ligou e me contou que uma amiga dele sonhou com Iracema, irmã dele já desencarnada também, pedindo com muita alegria que dissesse ao Fernando que a Yasmin estava muito bem, e que ele não se preocupasse. Essa amiga não levou o sonho a sério e na noite seguinte a Iracema (espírito) voltou em sonho e cobrou dela para dizer ao Fernando com urgência que a Yasmin estava muito bem. Que ela desse o recado urgente a ele. E foi isso que a amiga fez. Ligou para Fernando logo pela manhã, no dia seguinte.
    O coração dilacerado de um pai bondoso ficou mais aliviado e sabedor de que a vida não acaba com a chanada morte.
    Obrigado querida por sua caridade! E quanto a você não ter assinado o outro recado, qual o problema, se você cumpriu sua missão e foi tão generosa?
    Que Jesus a abençôe!

  5. Dirceu amei o texto acima, gostaria que ele fosse loooooooooooooooongo o bastante para levar + ou – uns meses, rsrsrsrs. Amo ler e escutar algo sobre nossa familia, nosso ssangue, nosso passado. Lindo seu blog. Parabens!

  6. Obrigadinho prima Eliara! Vá lendo as crônicas que eu escrevi e que são muitas (72) e os causos, contos curtos, etc. Depois, quando estiver em Dom Joaquim, procure nosso livro “Palavras Lavradas” que está à venda na loja da Associação dos Artesãos de Dom Joaquim.
    Grande abraço para você e todos da nossa família.


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