Publicado por: Dirceu Rabelo | 07/10/2011

QUANDO O SÁBADO ERA DIA DO BANHO.

QUANDO O SÁBADO ERA DIA DO BANHO

Dirceu Rabelo

“Filho de Maria Homem nasceu; Cerro Bravo foi seu berço natal…” (Música do seriado: Jerônimo, o Heroi do Sertão!)

Antes, muito antes da televisão chegar aqui no Vale do Rio Doce e em todo o interior do Brasil, o rádio era o companheiro inseparável do homem (e da mulher) desses rincões. Suas baterias costumavam ser quase do mesmo tamanho deles mesmos. Eram maiores do que um grande tijolo, um adobe. E poucas casas podiam ter energia elétrica; fazenda então… O rádio era realmente um campeão de audiência.

Lembro-me que aos sábados nós meninos éramos obrigados a tomar banhos com bucha e sabão, para tirar a sujeira incrustada, principalmente no pescoço e nos calcanhares.  Não havia chuveiro elétrico e nesse dia, as fornalhas esquentavam tachos com água para nossos banhos, em grandes bacias de cobre. Só mais tarde é que chegaram os banheiros com caixas d’água, serpentinas nos fogões a lenha, e depois os chuveiros elétricos que davam choque até no vento.

Nos outros dias da semana, como vivíamos nadando nos dois rios que passam aqui em Dom Joaquim, só lavávamos os pés depois da janta e papai ligava o rádio na Nacional do Rio de Janeiro, para ouvirmos os seriados “As Aventuras do Anjo” e logo depois, “Jerônimo, o Herói do Sertão!”. O rádio chiava que nem um asmático, mas dava para entender os diálogos dos personagens.  A novela “Jerônimo” era tão importante para nossa gente humilde, que havia quem fizesse promessas para seu santo de devoção a fim de tirar o herói, ou a mocinha, Aninha das mãos do vilão. Dali, era cama para todo mundo.

Papai ainda continuava ouvindo um programa sertanejo, já em alguma emissora paulista e nós dormíamos ouvindo lá da sala, o doce som do velho e bom rádio.

Aos sábados não tínhamos os seriados, mas em compensação a Rádio Nacional apresentava durante a tarde, sempre sob o patrocínio dos sabonetes Eucalol (um produto da Myrta Sociedade Anônima), animados programas de auditório com calouros e a presença de Emilinha Borba, Marlene, Caubi Peixoto, as irmãs Dircinha e Linda Batista e muitos outros cantores famosos da época.

Lembro-me bem do “Repórter Esso” – Testemunha Ocular da história! – que fez muito sucesso naquela época, na voz de três monstros sagrados: Heron Domingues, Gontijo Teodoro e Luiz Jatobá. Quando esse grande “jornal falado” anunciou em edição extraordinária, no dia 24 de agosto de 1954 o suicídio de Getúlio Vargas, eu, nos meus sete anos de idade fiquei “felicíssimo”, porque não teríamos aula naquele dia.

A tragédia, por maior que ela seja nunca atinge a todos. Uns são inocentes; outros indiferentes ou ignorantes, afora os culpados por ela.

Mas, quem não se lembra do “Edifício Balança Mas Não Cai”? “Programa César de Alencar”, “O Sombra”, “Papel Carbono”, “Histórias do Tio Janjão”, “Consultório Sentimental”? Este último era comandado pela Helena Sangirardi que conheci na casa do maestro Carlos Eduardo Prates e Haydée, e de quem fiquei amigo, por ser cozinheiro. Caraca! Eu tô é veio!

Já militando no meio artístico no Rio de Janeiro, fiz várias gravações de pequenas “radionovelas” na Radio Nacional – Praça Mauá nº 7 – bem ao lado do cais do porto e próximo da Rádio Mayrink Veiga.  Como radioator gravei uma grande série chamada “Uma Data para Lembrar”, naquele mesmo espaço, naquele mesmo cenário, por onde passaram todos os meus ídolos do passado, e com textos redigidos pelo mesmo autor do seriado “As Aventuras do Anjo”, o grande/pequeno amigo cearense Lourival Marques. Ele não media mais do que1,58m, mas era grande como redator e homem bom  e receptivo com todos. Éramos colegas de TV Educativa, onde também trabalhava o grandalhão Fernando Lobo, pai do Edu e também um grande mestre.

Quanto aos nossos banhos de sábado à noite devo fazer uma confidência, para o bem da história deste sertão mineiro:

– Acho que nos dias de semana daquela época, as mulheres só tomavam o tal de banho tcheco!

Perdoem-me queridas e bravas mulheres deste sertão bravio, mas aquilo só podia ser herança portuguesa; com certeza!  Cruz credo!

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Responses

  1. Meu caro Dirceu! Que bom o seu Blog. Essa história do Herói do Sertão é ótima e verdadeira. Eu vivi isso também. E tinha o moleque Saci e seu cavalo Goiabada. Devagar vou lendo seus textos.

  2. Romeu, meu caro e dileto primo!
    Que bom receber um comentário do primo e amigo!
    Você me lembrou o nome do cavalo do Moleque Saci (Goiabada) que era interpretado na Rádio Nacional por Cauê Filho; já o Jerônimo era interpretado pelo radio-ator Milton Rangel.
    Fico feliz que você esteja gostando de minhas crônicas e peço-lhe que continue escrevendo as Crônicas Conceicionenses, para publicá-las futuramente. Combinado?
    Abraço fraternal.


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