Publicado por: Dirceu Rabelo | 20/10/2011

TIO BENTINHO COSTA; SEMPRE ELE!

TIO BENTINHO COSTA; SEMPRE ELE!

Dirceu Rabelo

Como contei na crônica “A CPI do palhaço”, que está no livro “Palavras Lavradas”, nossos circos de crianças se formaram em toda a cidade, depois da passagem por Dom Joaquim do circo do palhaço Mosquito, originário de São Paulo.

Nós, de alguma maneira, tentávamos assistir ao máximo às sessões do circo, para decorarmos tudo o que fosse possível a fim de que pudéssemos montar depois “nossa própria companhia de fundo de quintal” e com isso, colocar para fora nosso dom artístico e ganhar alguns trocados.

Quando o circo partiu para Guanhães, tratamos de montar os nossos pequenos “cirquinhos” de fundo de quintal e dois prosperaram: o da casa de José Pires e o da venda de Benedito da Ponte.

No fundo do chalé de Zé Pires – dentista famoso da cidade – formamos um circo mais social que atraia crianças e pessoas da sociedade da época. Já o circo dos filhos de Benedito da Ponte (Ladir, Jadir e Remir) ficava nos fundos da venda dele e, portanto, a platéia era formada mais por pessoas alcoolizadas e aqueles meninos mais travessos da cidade e que não eram aceitos no nosso circo, nem pagando.

Nosso circo, onde eu era o palhaço titular e tendo como reserva o Ronaldo, tive uma acusação comprovada de corrupção aos 13 anos (que vergonha, meu Deus!), e para fazer parte de seu elenco, era necessário ter uma comprovada capacidade artística. Todos que ali trabalhavam sabiam fazer alguma coisa muito bem e nossos ensaios eram diários, para chegarmos perto da perfeição.

Vocês, leitores podem estar pensando que é excesso de zelo com meu cirquinho, mas não! Nós trabalhávamos como gente grande. Daí o porquê do crescimento do circo e de nosso irrefreável sucesso que ficou na história. Ali trabalharam Sônia Costa, Adelaide Almeida, José Agnaldo, Reinaldo, Zezinho e Ronaldo Pires, Paulinho Viana, eu e mais alguns que não me lembro mais. E encenávamos peças inteiras, esquetes curtos e números os mais variados. Coisa de profissional!  

Nos fins de semana, eu que era um engraçado palhaço, segundo aqueles que me viram atuar, tinha ainda a função de sair às ruas com uma espécie de megafone de papelão na mão e com um punhado de crianças pequenas e ensaiadas me acompanhando, para anunciar o espetáculo daquela noite e do dia seguinte:

– Hoje tem espetáculo?

E as crianças aos berros: Tem sim sinhô!

– Oito horas da noite?

– É sim sinhô!

E lá ia eu dando o meu recado. Para cada anúncio desses, eu ganhava mais uma merrequinha no meu salário palhaçal.   

Orvile de Pedro Viana estava meio invocado porque o Paulinho, irmão dele trabalhava em nosso circo como contra-regra e ele nem isso. Ele estava a fim de aprontar alguma, e tio Bentinho Costa “sacou” isso no ar e foi no ouvido dele e falou que nem aqueles capetinhas de história em quadrinhos:

– Olha Orvile, o Dirceu anda passando aqui na rua com aquela meninada, vestido de palhaço, gritando aqueles negócios que “vai ter espetáculo”… Aquilo ali é só para irritar você!

Pra quê Tio Bentinho foi mexer com o “cabeça de manga espada”, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Foi o mesmo que cutucar uma jaguatirica acuada.

Este era o apelido que Orvile odiava, e aquele futuro grande médico, hoje já no andar de cima com Deus, entrou numa de me barrar na rua de qualquer maneira. Tio Bentinho quase morreu de rir quando viu a reação de Orvile que falou espumando pelos cantos da boca:

– Nesta rua, aquele palhaço filho de João Paulo (eu) não passa mais!

E eu não sabia de nada. E se eu soubesse já me borraria todo, pois morria de medo dele.

Quando eu apontei lá na esquina com a meninada, gritando os bordões do circo, o Orvile já saiu de casa com um porrete de mulatinho na mão e encostou-se à porta da venda do Tio Bentinho Costa.

Pra quem não sabe, o mulatinho é uma das madeiras mais duras da mata Atlântica. Não quebra nunca, a praga. Nem cupim encara a madeira.

Tio Bentinho estava se acabando de tanto rir do que estava para acontecer, mas preocupado para que o planejado não chegasse às vias de fato.

Quando eu e meus acompanhantes nos aproximamos da venda onde o Orvile se encontrava, este pulou no meio da rua e bradou:

– Palhaço nenhum passa nesta rua aqui hoje. Não!

Eu, assustado, nem argumentei, mirando o tamanho e grossura do porrete. Dei uma meia volta, sai atropelando os meninos e com o megafone de papelão quase na goela, aos berros, desci correndo a Rua de Baixo:

– Hoje tem espetáculo?

E a molecada respondeu:

– Tem sim sinhô!

E Orvile ficou ali parado no meio daquela rua que hoje leva o nome de Bento de Almeida Costa, com um sorriso vitorioso e seu porrete na mão. Naquele dia, tio Bentinho se mijou nas calças de tanto rir.

Tia Antoninha, esposa dele, achava aquilo uma maldade, mas não passava de mais uma peraltice do velho Bentinho Costa. Coisa de menino grande…

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