Publicado por: Dirceu Rabelo | 09/11/2011

UNS MENINOS SEM NENHUMA EDUCAÇÃO.

UNS MENINOS SEM NENHUMA EDUCAÇÃO!

 

Dirceu Rabelo

Meu pai foi um influente político em Dom Joaquim e, portanto, recebíamos em nossa casa, além das visitas normais de parentes e amigos, aquelas dos deputados amigos do velho João Paulo, que vinham sempre com suas intenções eleitoreiras.

Mamãe os recebia com toda a vênia possível, além de tratá-los a pão de ló, pastéis, empadas, doces, biscoitos diversos e muitas guloseimas mais. Isso, quando não fazia para os representantes do povo, maravilhosos almoços ou jantares.

Naquela época, os casais brasileiros não eram “achinesados” como hoje, que só têm um filho, no máximo dois; o negócio era encher a casa de menino e que Deus nos acuda! Nossa família era constituída (e ainda é) de dez filhos vivos, afora os que desencarnaram.

Quando havia uma visita importante como as dos deputados Vicente Gabiroba e Dr. Jairo Magalhães, dos quais meu pai era cabo eleitoral, mamãe fazia quitutes diferentes e já nos avisava antes:

– Ninguém toca na mesa enquanto as visitas estiverem se servindo. E completava. – Espere todos saírem que eu vou servir vocês.

As visitas chegavam sorridentes e garbosas e se empanturravam das deliciosas comidinhas, feitas com o maior carinho por dona Mercês, suas comadres e as boas e saudosas empregadas da casa e da vizinhança.

Papo vai, papo vem; PSD pra lá, UDN pra cá e nós, os dez filhos ali na cozinha, em volta dos convidados, com os olhos brancos de pura aradeza, olhar fixo no que estava por sobrar naquela farta mesa.

De vez em quando um deputado daqueles flagrava um olhar esfomeado mais apurado e chamava o desnaturado para dar-lhe um pastel e quem sabe um copo de guaraná Gato Preto ou Crush. Mamãe sorria, mas de seus olhos castanhos escuros saiam faíscas que nós, filhos, já conhecíamos bem: ela entendera que o deputado havia captado no ar um olhar pedinte, quase solicitante e atendera com sua tática caça-votos dando ao “mendicante” uma migalha para saciar sua fome, no caso inexistente; pura gula!

Ninguém aguentava e nem aguenta mamãe, hoje com seus quase 92 aninhos e lúcida como uma cacatua. (Sei lá se cacatua é lúcida…). 

Quando começavam as despedidas dos convivas e todos se levantavam da mesa, cheios de salamaleques, a “tropa de elite” tomava uma posição estratégica para o ataque final à mesa e daquilo que sobrou da comilança.

Mamãe não sabia se, se despedia dos deputados e assessores, ou se segurava os seus cinco meninos e cinco meninas esfomeados, que a qualquer momento atacariam aquela mesa. Qual seria sua alternativa? Mas ela se esmerava em receber bem e levava as visitas até a porta e é neste pequeno intervalo de pouquíssimos minutos que nós invadíamos tudo, por todos os flancos, num ato selvagem, comendo o resto do prato dos outros, pegando doce de leite mole com as mãos, e copo caindo, um menino gritando, outra rasgando um pedaço de leitoa com os dentes; era um inferno, quadro deprimente, dantesco, um escarcéu!

Quando enfim as visitas saiam de carro e mamãe voltava à cozinha, a coitada encontrava o caos. E nós, cada um se pirulitava para um canto com seus restos de comida, como hienas, abutres! Mamãe ficava com ódio daquilo e nós adorávamos fazer aquela selvageria. E que saborosa selvageria. E nem adiantava bater, pois na próxima visita nós usaríamos da mesma truculência para nosso ato de barbárie. Tínhamos o instinto de índios porque somos descendentes deles, pô!

Hoje, passados mais de 55 anos, já melhoramos muito, mas ainda continuamos com uma educação deficiente perante os acepipes, as iguarias, os pitéus. Coisa de índio! 

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