Publicado por: Dirceu Rabelo | 08/12/2011

PLANTAÇÃO DE QUÊ MESMO?

PLANTAÇÃO DE QUÊ MESMO?

Dirceu Rabelo

Uma tarde esmorecida de um sábado de setembro de 1956 começava a agrisalhar o dia nublado em Dom Joaquim. Na venda de Zé Camilo, ali na esquina da Rua de Baixo, onde hoje é o movimentado bar da Lucilene, alguns fregueses chegavam para jogar conversa fora, como aconteciam todos os dias. No sábado a fonção era sempre maior, devido ao descanso de domingo. Ali já estavam Chico Lopes, ferreiro e contador de causos engraçados, o que seria hoje um gozador; Juquinha Santana, espirituoso como ele só; Domingos Maia, também ferreiro, com seu eterno paletó de bolsos lotados de biscoitos de goma que ele ia comendo aos poucos aos pedaços, sem oferecer a ninguém.

Tião Rita e Juca Napoleão, também dois ferreiros da cidade tiravam a poeira do carvão da goela com uma “branquinha” num canto do balcão e outros fregueses de pinga e meia libra de fubá, ali também se acomodavam.

 Engraçado, porque agora, contando o caso é que reparei que aquilo ali mais parecia uma assembléia dos ferreiros dom-joaquinenses; mas o encontro foi casual.

A profissão de ferreiro foi muito importante em todo o interior do Brasil como o foi também na Europa, de onde veio com os colonizadores. Em nossa cidade tínhamos vários e não faltava serviço para todos eles que faziam carimbos para bois, ferraduras, colheres de ferro, asas para canecas, bules, pequenos consertos em alambiques, tachos, etc.

O Juquinha Santana, embora nascido em Dom Joaquim, só passava férias e alguns feriados na cidade. Trabalhava numa repartição pública (Secretaria Estadual da Agricultura) em Pedro Leopoldo e contava que era colega de um moço muito bom, sempre adoentado, que conversava com os mortos, chamado Francisco Xavier. Ninguém acreditava no Juquinha. Achavam que era mais uma das piadas “espirituosas” dele.

Chico Lopes começou contando que as formigas saúvas estavam danadas este ano; haviam cortado quase todo seu arame farpado. Alguns riram da piada, mas o sacana do Juquinha Santana (olha só o nome da fera!) fez de conta que era a coisa mais normal e perguntou ao seriíssimo Chico Lopes:

-Mas o senhor não vai tomar nenhuma providência?

– Já tomei! – Respondeu imediatamente o Chico. – Tomei providências, e lá em casa agora não tem formiga nem pra fazer chá; morreu tudo!

E a platéia meio cochilando, só ouvindo o diálogo surrealista.

E continuou Chico Lopes, avô de Claudiney, o petista mais chato de Dom Joaquim:

– Mas não tinha veneno pra acabar com elas, então resolvi inventar um remédio caseiro, mas de bom resultado e graças ao Senhor Bom Jesus do Matosinhos deu certo. E dizendo isso, tirou o chapéu em sinal de respeito.

Olha só a avacalhação dos nossos antigos contadores de causos… Botavam até Jesus no meio, para engabelar a platéia. E os bobos lá, só escutando.

E continuou com a lorota o velho Chico:

-Intonce, eu fiz o seguinte; coloquei nas trilhas delas pó de fumo (rapé) bem forte. Do lado, coloquei pedras pequenas; adiante botei vidro moído e logo na frente coloquei esterco virgem… E foi tiro e queda!

Zé Camilo, dono da venda, avô do Kennedy do Brasileiro, começou a rir de balançar a pança, mas o Juquinha, na maior seriedade pergunta:

– Quer dizer que deu certo o tal remédio caseiro?

– Certo? Deu foi certo até demais. As formigas cabeçudas chegavam, iam cheirando o rapé e logo espirravam, aí tropeçavam nas pedrinhas, cortavam o pé no caco de vidro, pisavam no esterco e morriam de tétano daí a pouco tempo.  

Uns riam, outros mais bestas acreditavam, e outros mais idiotas ainda não entendiam tamanha engenhosidade criativa; ficavam aéreos, boquiabertos a pensar.

Depois o Juquinha Santana perguntou todo comedido ao Domingos Maia:

– Ô Domingos, ocê já plantou macarrão? Deste picadinho?

Chico Lopes até se virou de costas, pra não rir na cara dos outros.

Domingos Maia, meio mal humorado, já cortou o papo dele:

– Não! Eu só planto milho e feijão que é mais fácil. Macarrão eu deixo procê que é mais besta!

– Pois ocê não sabe o que ta perdendo. Maria Santana, minha irmã, plantou lá na horta dela e já tá colhendo pra despesa. Hoje mesmo, ela apanhou quase meia quarta de macarrão sequinho. A danada já fez sopa dele na janta. Delícia!

Chico Lopes mais que depressa deu seu aval:

– Eu também não deixo de ter meus pezinhos de macarrão cortadinho, lá no fundo do quintal. É bom demais e gostoso quando apanhado no pé, fresquinho. E dizendo isso, deu uma risadinha de leve para a platéia metida a matreira.

E aquela conversa mole rolou ali até quase às oito da noite, que era a hora em que João Gomes cortava a energia da cidade, pois a seca estava muito grande e a água do Rio Folheta mirrada, mal dava para tocar uma turbina.

Zé Camilo já foi fechando as portas e passando as trancas em tudo e o pessoal foi se escafedendo, cada um para sua freguesia.

Os dias e meses se passaram; a chuva chegou farta e quem plantou milho, feijão e arroz, colheu muito.

Certo dia, Chico Lopes estava em sua tenda de ferreiro na Olaria, na saída para Conceição do Mato Dentro, tocando o seu fole para manter o fogo aceso e fazendo uma colher de ferro de encomenda pra Inhaquina, quando chega um sujeito conhecido dele, lá das bandas do São João de Baixo e puxa conversa com ele.

– Bom dia seu Chico!

– Bom dia meu filho! Como é que vai a família?

– Tudo bem, graças a Deus.

– Tá precisando de alguma coisa? Uma colher de ferro, canecão com asa? Perguntou Chico Lopes.

– Não sinhô! Eu queria saber do senhor um negócio aqui… É sobre a plantação de macarrão?

-Plantação de quê mesmo? Perguntou Chico Lopes assustado.

– De macarrão! Respondeu o pobre do coió do São João. Eu tava lá na venda do “seu” Zé Camilo e vi o senhor falando sobre uns pés de macarrão que o senhor tem aí no fundo do quintal. Só que eu comprei uns seis pacotes de meio quilo de macarrão novo, preparei a terra com arado de boi, plantei com terra estercada, a chuva veio boa e o sol também, mas nada do macarrão nascer. Quando demorou muito, eu abri a terra e o macarrão tava lá todo mofado.

Chico Lopes teve vontade de rir, mas a dó que ele teve do pobre homem foi maior e este resolveu falar sério, pelo menos uma vez na vida; só uma!

Ele pensou, pensou, e falou sisudo para o rapaz que perdeu tempo e dinheiro na empreitada:

– Você comprou esse macarrão para plantar, aqui mesmo em Dom Joaquim?

– Foi sim senhor! Lá mesmo no Zé Camilo, num dia que Zé Quarto chegou com uma carga nova de Belo Horizonte e entregou lá. – Respondeu o pobre desinformado.

– Pois é aí que o senhor errou. A semente de macarrão, a gente não compra na venda, não! Aquele macarrão é pra comer. A semente vem das “oropa”. Essa é que é a boa; é a que nasce. – Falou o Chico todo professoral.

E o jacu ali de boca aberta.

E continuou o Chico Lopes:

– Afinal, o senhor falou com alguém que estava plantando macarrão ali na roça?

O taioba do homem ainda confessa:

– Não sinhô! Eu resolvi falar que era amendoim, pra ninguém crescer o olho em mim e quando eles viram que a colheita não deu em nada, eu falei que devia ser semente ruim que eu arranjei.

– Foi bom! Foi muito bom o senhor não ter falado nada. Este povo é danado pra crescer o olho na plantação da gente, principalmente quando é novidade. – Falou Chico Lopes, já com vontade de chegar um ferro em brasa na bunda do tal homem, pra ele deixar de ser lerdo.

E o pobre homem foi-se embora com o conselho de Chico para continuar plantando amendoim, milho, feijão e outros grãos. Ele ainda se comprometeu em arrumar para o “seu coisa” umas sementes, nada mais que uma libra, de macarrão alemão, que era o que mais dava nos cachos da “macarroneira”. Era fartura demais da conta.

– “Vai demorar a chegar, porque vem de muito longe. Mas, não conta nada a ninguém!” – Alertou Chico Lopes.

Quando o coitado do lavrador sumiu na curva da Rua Nova, Chico Lopes coçou os cabelos já ralos e pensou com seus botões da braguilha:

– Se a gente, na brincadeira, engana um homem destes até mesmo sem querer, imagina uma mulher sem-vergonha então, uma rapariga com bastante fogo na bacuringa? 

E pensaroso, como ele mesmo dizia – pensando com pesar do pobre desgraçado – voltou a puxar o velho fole para manter as brasas acesas e continuou fazendo aquela colher de ferro de encomenda de dona Inhaquina.

 

 

 

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Responses

  1. Ótimo texto, como sempre!

  2. Amarildo, caro primo e leitor da primeira hora…
    Continuo buscando as “prosas” dos nossos antepassados, com suas molecagens, brincadeiras, truculências, já de olho no segundo livro que lançaremos, na tentativa desesperada de tentar resgatar um pouco mais da cultura dessa maravilhosa gente dom-joaquinense. Agora, aqui, lembrei-me de uma campanha política de Tio Walney para prefeito, no distrito de Viamão, hoje Carmésia, e lá estava Tio João Teixeirinha, com umas pingas no “coité”, dançando a “moda de quatro” a noite inteirinha. Dá uma boa crônica. Abraço forte e Feliz Natal e 2012 maravilhoso!

  3. Dirceu Vc só esqueceu de falar que meu Avô Chico Lopes, plantava macarrão debaixo dos pés de tomate, para colher c/ molho!!!KKKKKKKKKKKKKKKKK valeu demais lembrar dos nossos queridos antepassados( essa Orbe de LUZ que nos proteje sempre)…Quanto a este pobre mortal PETISTA CHATO só tenho que agradecer e me orgulhar da minha origem e de ter Vc como amigo e incentivador. Agora tb tenho um Blog: link http://djbigclau.blogspot.com/
    estou mais ambientalista do que Petista ( me formei em Tecnico em Meio Ambiente) para compensar o genocídio das formigas vitimadas pelo meu AVÔ CHICO LOPES!!!!!!!!!!!!hehehehe

  4. Claudinho, caro amigo! Que bom que você já tem seu próprio blog! Já estava passando da hora… Estou indo amanhã para Lima (Peru) com o Dirceuzinho e a esposa Julissa para conhecer a família dela. Quando voltar, darei uma espiada no blog do amigo e parente. Quanto ao “petista chato”, foi uma maneira de homenagear uma das mais exuberantes cabeças pensantes de Dom Joaquim. Grande abraço e feliz Natal e um 2012 muito melhor do que o 2011.

  5. bom para completar o macarrao só faltou plantar um pé de boi ralado agarrado com o pé de tomate p dar um molho a bolonhesa!!! HUM Q DELICIA… Essa minha família de loroteiros e embromadores…

    • Sabrina, o velho Chico Lopes comia era o macarrao sequinho ou entao em sopa. Daí nao ter o molho de tomates ou mesmo o a bolonhesa. Desculpe-me pela falta de til pois estou no Peru/Lima e aqui só o ñ leva til. kkkkkkk

  6. DIRCEU; CUZCO fica no PERÚ!!?kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Prá aguentar a altitude tem que ser muito MACHU…PICHU….kkkkkkkkkkkk
    ……………………………………………………………………………………………………
    Brincadeiras a parte, feliz estadia nesta terra linda e cheia de mistérios e encantos!!! Faça uma oferenda por mim a PATCHAMAMA.
    Grande abraço fraternal; luz e paz a todos!!!

  7. Claudinho, bom amigo e primão,
    Aqui, Deus me reservou até um “temblor” que é um tremor de terra de 4.8 graus na escala Richter. Temblor para eles que já estão acostumados. Para mim foi uma terremoto mesmo. Quase me caguei todo. Foi a 1h da manhã, hora local de Lima e acordei com tudo balançando e a terra urrando como uma grande barriga esfomeada… Temblor é o caral….! Depois, masquei algumas folhas de coca que se encontra em qualquer vendinha e me acalmei e fiquei calminho,calminho…., EU PRA DIZER A VERDADE, AÍ EU JÁ QUERIA MAIS TERREMOTO QUE NÃO VEIO MAIS.
    PATCHAMAMA MANDA LHE DIZER ATRAVÉS DE PSICOFONIA QUE SEU FUTURO “ES MUY BRILLANTE E HERMOSO”.
    Beijo na sua alma e Feliz 2012 cara!!!!


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