Publicado por: Dirceu Rabelo | 29/12/2011

PISANDO EM FOLHAS SECAS…

PISANDO EM FOLHAS SECAS…

Dirceu Rabelo

No noticiário das 8h30min da TV Globo, do dia 29 de outubro passado fiquei sabendo do centenário de nascimento do grande compositor Nelson Cavaquinho. Ali também o locutor revelou que ele era da cavalaria da policia militar e que numa das “batidas” no Morro da Mangueira, ele deixou seu cavalo numa ruela daquelas e foi se juntar aos compositores mangueirenses, dentre eles o mestre Cartola. Toca violão daqui, compõe uma estrofe dali, uma melodia a dois, criada aos goles de traçados e o tempo foi passando. O cavalo voltou sozinho para o quartel e depois de uma cadeia pelo “delito”, o poeta deixou a farda e caiu na “malandragem”, tornando-se o “Poeta da Mangueira” com sapato e terno branco e chapéu, que usava por ser moda, mas que ele mesmo me confessou sempre tê-los usado a contragosto. Esse fato do cavalo ocorreu por volta de 1935, segundo Nelson. E eu já sabia disso da boca do próprio compositor…

Agora é que eu entro na história cambada!

Em 1983 eu estava ensaiando a peça teatral “O Santo Inquérito”, texto do grande Dias Gomes e uma super produção com direção de Flávio Rangel, com elenco maravilhoso, encabeçado por Isabel Ribeiro (depois Dina Sfat), Ítalo Rossi, Carlos Vereza, Cláudio Marzo e muito mais. E eu, ali no meio dessas feras, com um papel pequeno e fazendo também parte do coro. O teatro era o “Teresa Raquel”, bem ali no Bairro Peixoto, ao lado de Copacabana, Rio de Janeiro. Ao findar nosso ensaio com Dori Caymmi, diretor musical da peça, e como no dia seguinte, domingo era dia de folga, desci até um bar no mesmo prédio do teatro para tomar um traçado de pinga com vermute.

Depois de três traçados e de uma Caracu gelada, em uma tarde da Zona Sul carioca, nada demais se te aparecesse um cantor ou um autor de sucesso, ali de repente.

Pois me apareceu um cantor, compositor e autor dos mais completos de todos os tempos. E depois daquele cumprimento de todo boca-de-golo em beira de balcão, o papo rolou entre o mestre Nelson Cavaquinho e eu. Ofereci-lhe um traçado e ele não se fez de rogado. Traçou o traçado!

Lembro-me bem da camisa de manga comprida cor de abóbora que ele trajava e da calça de linho branca amarrotada; trago vivo na memória também os cabelos ondulados e bem penteados do poeta, já bem brancos com raros fios pretos, mas com uma tonalidade amarelada. Nas mãos, um violão altamente afinado e sentando-se no banquinho do bar que dava para a rua e com sua voz meio rouca, começou a cantar: “Quando piso em folhas secas caídas de uma mangueira…” Folhas Secas: um de seus maiores sucessos!

Eu o chamando de poeta ou mestre e ele, depois de perguntar meu nome umas dez vezes, optou por me chamar de “mineiro” simplesmente e nós ali afogados nas melodias mangueirenses e nos traçados alcoólicos copacabânicos.

Ele havia me dito que tinha alguém ou algum parente que morava ali por perto, mas eu morava no Flamengo e o porre estava chegando a passos largos. E o repertório do mestre não acabava e nem seu apetite pelos traçados, sempre pagos por mim.

Sei que acertei a conta umas quatro vezes, até que deixei o grande mestre e seu violão sem assistência e peguei um taxi para meu apartamento, antes que eu me apagasse por ali mesmo, no Bairro Peixoto, deitado sobre as folhas secas das figueiras daquela época. 

Hoje não bebo mais, por opção e necessidade. Nem ele, que já está no plano espiritual “cantando junto com a turma mangueirense que já se mandou para o andar de cima”, como ele diria malandramente.

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