Publicado por: Dirceu Rabelo | 07/02/2012

UM VOO DE HELICÓPTERO

UM VOO DE HELICÓPTERO

Dirceu Rabelo

Num domingo desses passados, a chuva deu uma trégua e o sol apareceu abundante, exageradamente quente, mas chegou na hora certa de amainar um pouco a indolência das águas da primavera.

Perto da hora do almoço, um barulho de helicóptero me chamou a atenção, mas, como as empreiteiras que estão instaladas na cidade, e a própria mineradora, Anglo American, usam esse meio de transporte para fiscalizar suas obras, não dei muita atenção ao tal helicóptero. Só que o barulho tornou-se mais intenso, e como minha casa fica bem próxima do campo de futebol, vi que um aparelho desses estava se preparando para pousar ali.

Por estar mais próximo do campo, fui fazer as “honras da casa” e receber as visitas. Esperei a aeronave terminar as manobras de pouso e a hélice rarear seus giros para me aproximar dos “extraterrestres”.

Primeiro desceu uma jovem senhora com duas crianças e uma moça, que me pareceu ser uma funcionária da família. Dizendo-me secretário municipal de Cultura e Turismo do feudo, dei-lhes as boas-vindas à Dom Joaquim. Lá dentro da aeronave, um piloto bastante compenetrado no painel e suas chaves e luzes, me olhava de esgueira e falou sorrindo:

– O “parente” aí já me carregou no colo e não está me reconhecendo…

Olhei bem para ele e reconheci ali traços de Madureira e Simões: Wallace, filho de Valma e Elmo Braz. Ele veio com a família fazer uma visita ao avô materno. Depois de um abraço, prontifiquei-me a levá-lo com a comitiva até a casa de Hermógenes Simões, seu avô.

Dei-lhe meu telefone para que ele me ligasse quando quisesse retornar ao “heliporto”; eu o buscaria com a família no meu carro.

Neste meio tempo, e recordando de suas traquinagens quando criança, na residência de Dona Helena, sua saudosa avó materna, que eu frequentava por namorar uma de suas filhas, peguei um exemplar de meu livro “Palavras Lavradas” e dediquei a ele e à sua família.

Quando, horas mais tarde, Wallace retornou ao campo de futebol, já veio em outro carro e eu o entreguei meu livro autografado. Eu estava acompanhado de meus netos João Arthur e Luiz Fabiano. Ele me perguntou que crianças eram aquelas e quando soube do grau de parentesco e de que elas eram loucas por máquinas, principalmente as voadoras, ele propôs um voo com elas.  

Antes de ligar as hélices, ele acomodou um adulto na frente e um adolescente num dos bancos de trás e no outro banco traseiro, ele colocou os meus dois pimpolhos, agarrados parecendo siameses e lacrou a porta por fora.

De olhos arregalados, mas sorridentes e sem saber direito do que estava acontecendo ou por acontecer, eles alçaram voo, dando “adeusinhos” e jogando beijos para mim e para a mãe, Maruanna, que quase enfartou.

Wallace voou pela parte norte da cidade e depois pelo Gaia e a Barragem e voltou a pousar. Foi rápido, mas compensador.  Os meninos desceram da nave perguntando se podiam ir de novo, e a que horas poderiam voar novamente. Tudo na maior naturalidade.

Depois fiz o mesmo trajeto e foi também meu primeiro voo de helicóptero, que é muito diferente dos voos de avião. De helicóptero tem-se a ideia de um voo de pássaro; você se vê de frente com a natureza. É quase que inenarrável a sensação de liberdade que a gente tem nesse voo.

Mas, lá no alto, Wallace me mostrou algo ao longe e me explicou pelo fone da aeronave, o porquê dos passeios tão rápidos: mantas de chuva despencavam de nuvens negras, lá pelos lados da Serra do Cipó e ele teria que decolar para a capital a driblá-las, antes que elas chegassem a Dom Joaquim.

Logo depois que pousamos sua esposa, os filhos e a funcionária embarcaram e o helicóptero subiu mais uma vez para desaparecer por detrás das montanhas que cercam nossa Dom Joaquim.

Restaram as perguntas aos dois pequenos sobre o voo; para eles foi como se tivessem feito um passeio no “Trenzinho da Alegria”, na Festa de São Domingos pelas ruas de Dom Joaquim.

E os coleguinhas deles ficaram com um misto de inveja e admiração pela bravura dos dois pequenos “astronautas”. E eles ainda inventaram que lá de cima viram um jacaré e uma onça lá na Barragem. Isto, para tornar o voo mais espetacular. Para quê mais?

Até hoje eles falam nisso. E quando se aproxima um helicóptero da Anglo para inspecionar uma obra, eles perguntam se é meu primo que está chegando do céu…

Só faltava esta: – O Wallace virou anjo! Logo o Wallace…

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Responses

  1. DIRCEU; Vc já faz de pequenos “causos” belas histórias e estórias, agora com um roteiro mágico, que lhe cai nos colos assim…coisa de DEUS mesmo…DIVINO!!! Como deve ser bom ter um AVÓ: DIRCEU!!!!!!!!!!!!!

  2. Meu mais novo “Poeta del Mundo” Claudinho Alvarenga,
    Você sabe bem disso: escrever é que nem comer torresmo com angu; se começar, você vai longe e quanto mais se come, ou melhor, se escreve, mais você vai escrevendo e nestas escrivinhadas, de quando em vez sai algo que presta. Quanto aos meus netos, gosto mesmo deles – e aí sim! – é algo DIVINO, pois não temos laços de sangue e sim ESPIRITUAIS. E que laços fortes nos prendem!
    Quanto a mim, eu diria que sou um avô que eu sempre almejei ter…
    VOCÊ TEVE UM GRANDE AVÔ: o sacana do Chico Lopes. rsrsrsrs

  3. Pai, adorei a história dos meninos. E como são corajosos, não? Eu provavelmente, daria para trás!

    Amo vcs!!!!

  4. Pois é menina; eu mesmo fiquei impressionado com a coragem dos dois. E a Maruanna se borrando toda. Eles já estão aqui em casa para o café da manhã, em plena segunda-feira de carnaval. Beijos!


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