Publicado por: Dirceu Rabelo | 22/02/2012

PADRE BENTO: O CÔNEGO!

PADRE BENTO: O CÔNEGO!

Dirceu Thomaz Rabelo

Final de 1951, princípio de 1952; não sei precisar bem a data, mas, eu já estava com mais ou menos cinco anos, quando certo dia Padre Bento entrou em nossa casa pedindo licença, e indagou de mamãe onde estavam os meninos mais velhos. Ele se referia aos gêmeos, Márcio e Gésner que estavam naquela tarde, acompanhando papai numa pescaria.

A velha igreja de São Domingos dividia as praças Cônego Firmiano e XV de Novembro, hoje, Waldemar Teixeira e ficava ao lado da Tenda de São Domingos, agora rebatizada de Centro Cultural Maria Magdalena Thomaz. Nossa casa ficava do outro lado dela, onde hoje é a casa de José Inácio.

Depois de saber do paradeiro dos mais velhos, ele perguntou pelo Antônio (Tóia) e mamãe respondeu-lhe que ele estava cortando uma vassoura para o forno de quitandas.

Nisso, eu estava chegando do fundo do quintal todo sujo, e calado fui entrando pela cozinha, onde mamãe servia um café com biscoitos de goma quentes para o comensal religioso. Mamãe me inquiriu:

– Não vai pedir a bênção a Padre Bento; não?

– Bença Padre Bento! Falei automaticamente…

– Deus te abençoe meu filho! Falou o padre carinhosamente, passando as mãos sobre meus cabelos, cortados por Diomar à “príncipe Danilo”.

Nisso, o padre se lembrou de que na igreja tinha um defunto esperando para ter a sua alma “encomendada” e falou pra minha mãe:

– Mercês, este menino mesmo serve. Arruma ele depressa que eu espero.

Mamãe, mais do que depressa passou uma água na minha cara, braços e pernas e me vestiu com a minha única roupa de domingo. E lá fui eu com padre Bento, sem saber o porquê do sequestro.  

Chegando a igreja, ele me levou à sacristia e enquanto se paramentava, falou:

Olha aqui menino: eu vou falar um punhado de palavras e você não vai entender nada. Então, quando eu olhar pra você, diga AMÉM!

– Tá bem! Respondi na maior calma. E aí ele me entregou a caldeira de água benta com o devido aspersório, para regar o defunto e saímos.

Rumamos para o centro da velha e linda igreja e lá estava o falecido no caixão, e os parentes e amigos chorosos ao seu redor. Quando nos aproximamos, abriu-se uma clareira e padre Bento já iniciou a encomendação que naquela época era toda em latim:

E mandou ver o padre Bento:

Credo!

Credo in Deum, Patrem omnipoténtem,

Creatórem caeli et terrae;

et in Jesum Christum, Filium eius únicum,

Dóminùm Nostrum;

qui concéptus est de Spíritu Sancto

natus ex María Virgina,

passus sub Pontio Piláto

cruxifíxus, mórtuus, et sepúltus;

descéndit ad ínferos;

tércia die resurréxit a mórtuis;

ascéndit ad caelos;

sedet ad déxteram Dei Patris omnipoténtis;

inde ventúrus est judicare vivos et mórtuos.

Credo in Spiritum Sanctum

sanctam Ecclésian Cathólicam,

sanctórum communiorem,

remissiónem peccatórum carnis resurrectiónem,

vitam aetérnam.

E quando terminou de rezar o “Credo”, que o fez de olhos fechados e concentradíssimo, esperou por minha resposta, mas, eu estava distraído, admirando os parentes chorosos. Ele me cutucou com o bico do sapato e aí, me dei conta de que estava a “serviço” da “Santa Igreja Católica Apostólica Romana” e falei bem alto:

– AMÉM!

Todo mundo riu; até padre Bento.

Ele continuou a sua ladainha latina e eu, a qualquer olhado de soslaio dele, sapecava um AMÉM e o povo ria da minha cara de pau e ingenuidade.

Foi uma encomendação “sui generis” de padre Bento, pois os familiares saíram dali para enterrarem seu defunto mais confortados, menos chorosos… Mas a partir daquele dia, o velho padre, até sua morte, ocorrida meses depois, preferiu os meninos mais velhos lá de casa, nos seus ofícios religiosos.  

– Este seu menino pequeno, Mercês, é um palhaço nato! Vaticinou padre Bento. E não é que o padre, que era cônego estava mesmo certo!

Aquilo nem foi um vaticínio; foi uma praga rogada!

NR) Esta crônica foi feita e publicada na quarta-feira de cinzas, para que os foliões se “redimam de seus pecados” rezando o CREDO em latim, quantas vezes forem necessárias para aliviar suas mentes devedoras. Amem!

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Responses

  1. Fala, quase conterrâneo, só você mesmo para colorir nossa quarta-feira de cinzas. Abração,

  2. Olá caro Francisco!
    Pra trocar a “rasgação de seda” corri lá nos seus “VERSOS INSONES” e lasquei também um comentário pós carnaval. É bom, não? Tá um paradeiro dos diabos, ainda mais que agora é quaresma… lobisomem… Abração!

  3. Dirceu, não sei se voçê se lembra de mim, eu sou filho de joaquim fontoura ex alfaiate em dom joaquim. Gostei muito de sua publicação soubre Padre Bento,eu tambem já fui sacristão ajudando missa,eu era meninote e ele ia la em casa bem sedo me chamar para ajudar na missa,porque eu não conseguia acordar,então elle pedia aminha mãe para me acordar. Tenho muita saudades dessa época e que na juventude, fiz parte na banda de musica aí junto com mais quatro irmão Moacir adair almir altair eeu, nãsei se voçê se lembra, estou imprecionado como dom joaquim melhorou, parabêns pella administração e tambem a voçê e todos os Dom Joaqinenses,um abraço a todos do conterraneo, Jadir.

  4. Caro Jadir,
    Tenho uma vaga recordação de Sr. Joaquim Fontoura, seus filhos e sua residência, perto do casarão de José Pires. Lembro-me de vocês tocando na banda de senhor Olivier Braga, mas como já disse, é somente uma vaga lembrança. Mas, saiba que a sua família está na história de Dom Joaquim e se você tiver algum documento ou objeto relacionado com sua família, que possa doar para o “MUSEU DE DOM JOAQUIM”, melhor ainda, para que essa relação fique mais firme e exposta para todos.
    Grande abraço fraternal,
    Dirceu (filho de João Paulo e Mercês)


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