Publicado por: Dirceu Rabelo | 05/03/2012

UM VERDUREIRO ECOLOGICAMENTE CORRETO

UM VERDUREIRO ECOLOGICAMENTE CORRETO

Dirceu Rabelo

A figura miúda e de passos também pequenos e apressados sempre dobrava a esquina do Beco de Sá Nati, chegando à praça, quando o sol começava a se por, detrás da mata do Gaia. Mesmo com chuvas, aquela figura diminuta cumpria seu ritual quase que diário de labuta, e ao chegar à Praça Cônego Firmiano entrava pela porta lateral da igreja velha de São Domingos. Antes, deixava à porta da matriz, seu enorme balaio de taquara repleto das mais variadas verduras e legumes, e ovos fresquinhos. Ao lado, a rodilha que lhe servia de apoio e proteção à cabeça.

Ali, “seu” José de Souza, ajoelhado fazia suas orações ao lado do “Senhor Morto”, compenetrado, mas, apressadamente como seus passos, e retomava o balaio para as vendas de sua preciosa feira, sem um nanograma de agrotóxico.

Além dessas preciosidades entregues de porta em porta a preços camaradas, o quiabo roxo, chuchu, jiló e outros legumes pequenos eram embrulhados pela esposa e filhas de “seu” Zé de Souza em folhas de quiabo, mamona e inhame, e amarrados com embira. Mais natural impossível!

Ele era um homem honesto e modesto que aceitou a vida laboriosa que Deus lhe concedeu. Assim, venceu com suas verduras e legumes, pois cumpriu seu importante papel na sociedade dom-joaquinense com generosidade e coragem, mesmo levando uma vida pacata, nos moldes simples do interior.

Sempre solícito, tinha uma voz calma e baixa e tratava a todos, mesmo as crianças, com educação e respeito, e por essas e outras boas razões era muito respeitado por todos. 

Todos de minha geração lembram-se dele e do respeito que nossos pais tinham por ele e por seus familiares. 

E “seu” José só retornava para sua casa, do outro lado do Rio do Peixe, com a noite já tingida no firmamento, de onde Deus com certeza o abençoava e a seu vazio balaio. 

Seu filho Pedro de Souza seguiu a humilde, mas, honrada profissão do velho pai e até seu falecimento, entregou verduras e legumes de porta em porta, como fez “seu” José, durante toda a vida.

Hoje, uma nora de “seu” José, dona Maria de Souza pode ser encontrada todos os sábados na feirinha da “Barraca de São Domingos”, fazendo o mesmo que o sogro, mas, já não há a entrega a domicílio, e as embalagens… Bem, as embalagens são as de plástico, bem mais poluidoras que as verdinhas folhas de mamona, quiabo e inhame que “seu” José usava.

Afinal, os tempos modernos não comportam essas “jecanças”, como embrulhar as coisas em folhas…

Seu filho caçula, Paulo Bernardo (Paulinho de Souza),  junto com a esposa e um filho continuam a produzir e a vender aqui mesmo em Dom Joaquim,  legumes e verduras orgânicos, como fazia o saudoso pai que ficou em nossa memória.

Mas, “seu” José de Souza fez seu trabalho de sol a sol, debaixo de chuva, frio, calor e embora aparentemente frágil, era um homem muito forte e perseverante; com suas “miudezas” criou toda a família com humildade,  honradez, bondade e amor. E, embora sem ter noção disso, nas décadas de 1940/50 demostrou ser também um homem ecologicamente correto.

Será que ele não tinha noção mesmo?

                                                        ……………………………………………………………………………….

A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome. A humildade está na pessoa que tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, apenas abençoa.
(Emmanuel

Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza.
(Rabindranath Tagore

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Responses

  1. Dirceu, ficamos muito agradecidos.Muito nos emocionou relembrar fatos de uma pessoa importante para nossa familia e que também deixou sua historia cravada na de Dom Joaquim. Somando ao que foi dito atualmente seu filho caçula Paulo Bernado, juntamente com sua esposa e filho cultiva e vende verduras e legumes orgânicos em Dom Joaquim. Sua nora Maria de Souza seguiu os passos do sogro e sempre que pode está na feirinha vendendo seus produtos. Muito obrigado e parabéns pela pessoa que é e pelo resgate que tem feito através de seu blog da nossa cultura. Muita paz e luz para você. Benoni

  2. Caro Benoni,
    Fiz a crônica para reverenciar uma figura ímpar da gente dom-joaquinense. Senhor José de Souza foi uma pessoa muito importante para todos nós que o conhecemos e convivemos com ele.
    Não sei porquê, mas no calor da emoção de falar de pessoa tão importante, confundi dona Maria de Souza, sua mãezinha, como filha dele. Você me corrigiu e retornei à crônica e refiz o texto e a coloquei como nora dele e não filha. Aproveitei e adicionei a informação que você me passou sobre o caçula Paulinho e lá está na crônica tudo certo agora, para perpetuar a memória de seu avô. Esta crônica, certamente estará no meu novo livro a ser lançado.
    Grande abraço.


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