Publicado por: Dirceu Rabelo | 25/08/2012

A ORIGEM DA LÍNGUA ITALIANA

A ORIGEM DA LÍNGUA ITALIANA

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A Europa era uma confusão de inúmeros dialetos derivados do latim que aos poucos, ao longo dos séculos, se transformaram nalguns idiomas distintos – francês, português, espanhol, italiano.

O que aconteceu na França, em Portugal e na Espanha foi uma evolução orgânica: o dialeto da cidade mais proeminente tornou-se, aos poucos, na língua oficial de toda a região.

Portanto, o que hoje chamamos francês é na verdade uma versão do parisiense medieval. O português é na verdade o lisboeta. O espanhol é essencialmente o madrileno. Essas são vitórias capitalistas; a cidade mais forte acabou por determinar o idioma do país inteiro.

Na Itália foi diferente. Uma diferença importante foi que, durante muito tempo, a Itália nem sequer foi um país. Só se unificou muito tarde (1861) e, até então, era uma península de cidades-Estado em guerra entre si, dominadas por orgulhosos príncipes locais ou por outras potências europeias. Partes da Itália pertenciam à França, outras à Espanha, partes à Igreja Católica, e partes havia a quem quer que conseguisse conquistar a fortaleza ou o palácio local.

O povo italiano mostrava-se alternativamente humilhado e conformado com toda essa dominação. A maioria não gostava muito de ser colonizada pelos seus co-cidadãos europeus, mas sempre havia o bando apático que dizia: “Franza o Spagna, purchè se magna” que, em dialeto, significa: “França ou Espanha, contanto que eu possa comer”.

Essa divisão interna significou que a Itália nunca se unificou adequadamente, e o mesmo aconteceu com a língua italiana. Assim, não é de espantar que, durante séculos, os italianos tenham escrito e falado dialetos locais incompreensíveis para quem era de outra região.

Um cientista florentino mal conseguia comunicar com um poeta siciliano ou com um comerciante veneziano (excepto em latim, que não chegava a ser considerado língua nacional).

No século XVI, alguns intelectuais italianos juntaram-se e decidiram que isso era um absurdo. A península italiana precisava de um idioma italiano, pelo menos na forma escrita, que fosse comum a todos. Esse grupo de intelectuais fez algo de inédito na história da Europa: escolheu a dedo o mais bonito dos dialetos locais e baptizou-o como italiano.

Para encontrar o dialeto mais bonito, tiveram que recuar duzentos anos, até à Florença do século XIV. O que o grupo decidiu que a partir dali seria considerada a língua italiana correcta foi a linguagem pessoal do grande poeta florentino Dante Alighieri.

Ao publicar a sua “Divina Comédia”, em 1321, descrevendo em detalhe uma jornada visionária pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, Dante chocou o mundo letrado ao não escrever em latim. Considerava o latim um idioma corrupto, elitista, e achava que o seu uso na prosa respeitável tinha “prostituído a literatura”, transformando a narrativa universal em algo que só podia ser comprado com dinheiro, por meio dos privilégios de uma educação aristocrática. Em vez disso, Dante foi buscar às ruas o verdadeiro idioma florentino falado pelos moradores da cidade (o que incluía ilustres contemporâneos seus, como Boccaccio e Petrarca), e usou esse idioma para contar a sua história.

Ele escreveu a obra-prima no que chamava dolce stil nuovo, o “doce estilo novo” do vernáculo, e moldou esse vernáculo ao mesmo tempo que escrevia, atribuindo-lhe uma personalidade de uma forma tão pessoal quanto Shakespeare um dia faria com o inglês elizabetano.

O fato de um grupo de intelectuais nacionalistas se reunir muito mais tarde e decidir que o italiano de Dante seria, a partir dali, a língua oficial da Itália foi mais ou menos equivalente a um grupo de acadmicos de Oxford reunir-se um dia no século XIX e decidir que – daquela data em diante – toda a Inglaterra iria falar o puro idioma de Shakespeare. E a manobra funcionou realmente.

O italiano que falamos hoje, portanto, não é o romano ou o veneziano (embora essas cidades fossem poderosas do ponto de vista militar e comercial), e nem sequer é inteiramente florentino. O idioma é fundamentalmente dantesco…

Nenhum outro idioma europeu tem uma linhagem tão artística. E, talvez, nenhum outro idioma jamais tenha sido tão perfeitamente ordenado para expressar os sentimentos humanos quanto esse italiano florentino do século XIV, embelezado por um dos maiores poetas da civilização ocidental.

Dante escreveu a “Divina Comédia” em terza rima, terça rima, uma cadeia de versos em que cada rima se repete três vezes a cada cinco linhas, o que dá a esse belo vernáculo florentino o que os estudiosos chamam “ritmo em cascata” – ritmo esse que sobrevive até hoje no falar cadenciado e poético dos taxistas, açougueiros e funcionários públicos italianos.

A última linha da “Divina Comédia”, em que Dante se depara com a visão de Deus em pessoa, é um sentimento que ainda pode ser facilmente compreendido por qualquer um que conheça o chamado italiano moderno.

Dante escreve que Deus não é apenas uma imagem ofuscante de luz gloriosa, mas que é, acima de tudo, l’amor che move Il sole e l’altre stelle…“O amor que move o sol e as outras estrelas…”

NR) Colaboração: Jandyra Adami (Grupo Alhos & Bugalhos)
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