Publicado por: Dirceu Rabelo | 05/11/2012

DESERTOR – POESIA

DESERTOR

.

Dirceu Thomaz Rabelo

Meu desejo, neste campo de batalha,

Que se transformou minha vida

É desertar simplesmente e abandonar tudo

Deixar todas as minhas tralhas e partir.

Quando digo partir, é partir mesmo,

Ir-me embora, sair por aí sem destino…

Nunca tirar a vida, dar cabo dela.

Mas ir para onde? Nem mesmo eu sei.

Sempre me enojou a figura do ermitão…

Mas agora não! O eremita se apossou de meu ser.

Podem taxar-me de covarde, não me importo!

Cada um tem que procurar seu destino, seu porto.

Parece-me que tudo e todos se voltaram contra mim,

E pior, fizeram de mim o seu cais,

Onde desembarcam suas neuroses.

Onde se apegam a mim como se fossem cracas.

 .

Para onde vou, mesmo se estou ali a passeio,

Sempre tem alguém com despeito do que faço,

Com inveja do que crio ou com medo do que creio;

Com desejo de me enganar, de me ferir, de me magoar.

A traição ronda a minha porta a mancheias.

Por que saio do sério tão facilmente?

Às vezes me vejo odiado por pessoas

Que nem ao menos conheço,

Ou fiz-lhes mal algum, aparentemente.

Que ser brutal fui eu, Jesus, em vidas passadas,

Para retornar ao palco de minhas sandices,

De minhas loucuras, de atos covardes,

De minhas inconfessáveis e avassaladoras paixões?

E encontrar reunidos aqui, todos os meus credores?

Talvez neste mesmo cenário fatídico, onde agora sou massacrado,

Vilipendiado, e covardemente querer desertar da batalha,

Eu tenha feito muitos estragos nas vidas de inocentes.

É chegada a hora de pagar depressa a enorme dívida que deixei.

Se tantos me cobram, é porque meu débito já está lançado no livro razão.

Certamente, há muito, sou inadimplente na contabilidade espiritual.

Sou um grande devedor perante Deus!

Sem direito a rolar a dívida. É pagar ou pagar.

Com a permissão Divina, posso peregrinar com minhas palavras

Fazendo delas uma borracha, para apagar um pouco que seja

Os muitos erros que cometi no meu escabroso passado.

Permita Deus!

.

Dom Joaquim/MG, junho de 2006.

 Craca = crustáceo marinho que se fixa em navios e rochedos.

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