Publicado por: Dirceu Rabelo | 18/11/2012

MINHA MULA SEM CABEÇA – CRÔNICA

MINHA MULA SEM CABEÇA

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Crônica de Dirceu Thomaz Rabelo

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Nos trinta dias que antecediam o carnaval, minha cidade natal, Dom Joaquim, se alvoroçava toda em torno da folia de Momo. Geraldo de Sô Juca ficava até tarde da noite sintonizado nos programas “ao vivo” das rádios Mayrink Veiga, Nacional e Mauá, do Rio de Janeiro, para pegar em primeira mão, as melodias e as letras dos mais recentes sucessos de Emilinha Borba, Marlene, Jamelão, Caubi Peixoto e outros cantores da época. Joaninha, sua irmã mais velha reclamava: Geraldo! Vai dormir! Já são oito e meia! Geraldo só baixava o rádio, que chiava feito gente com asma, e continuava ali, ouvindo as músicas. As marchinhas eram repassadas para os rapazes e moças da cidade, para que fossem cantadas no clube, juntas com os antigos sucessos. As mães faziam fantasias para os filhos e os pais desembolsavam alguma grana para os filhos comprarem um quepe de marinheiro, alguns rolos de serpentina e um, até então, inofensivo lança perfume “Rodouro”.

Mas, para aquele menino – travesso o ano todo – a chegada do carnaval era motivo de preocupação também. Com sua turma, ele saia pelas ruas da cidade, fantasiado de “caveira”, tentando fazer medo em outras crianças e se divertiam a valer. Só que depois do carnaval viria a quaresma, e com ela, as goiabas e com essas, os temíveis lobisomens, a mula sem cabeça e assombrações em geral. Não que ele tenha visto algum desses filhos das trevas, mas, muitos contavam que já tinham visto; outros diziam que o avô deu de cara com um deles e se borrou todo. Só de pensar nisso, de cruzar com um deles, já era motivo de tremedeira e corpo arrepiado. Quantas e quantas vezes, ao vir do campo de futebol, atravessando a pinguela, do lado de lá do Rio Folheta e tendo que passar ao lado do quintal de dona Blandina, avistara belas, redondas e suculentas goiabas brancas, sem nenhum bicho; mas, cadê o interesse em apanhá-las? De jeito nenhum! Não, na quaresma! Debaixo dos pés de goiaba, na quaresma, horrendos lobisomens devoravam seus frutos, à espreita de meninos encapetados, para ser também devidamente devorados, assim, tipo sobremesa. Era o que comentavam por aí. Por via das dúvidas, ele, meio endiabrado deixava as goiabas pra lá.

Foram muitas as vezes que ele teve que subir e descer a Rua Nova à noite, só, ou acompanhado, mas a cada passada pelo “bambuzeiro” daquela rua sem calçamento e cheia de lama, um frio congelante percorria sua espinha. Na quaresma, ele evitava passar por ali. Tudo de ruim acontecia perto do bambuzeiro. A última tragédia foi o assassinato do sempre bêbado João Tijolé, por Zé Pequeno. Vinte e duas facadas!

Nos dias que antecederam a Semana Santa, embora a tensão aumentasse mais e mais, ainda lhe sobrava um tempinho de relaxamento para pescar com Carlinhos e Guinha, filhos do Sô Ulisses “guarda-fios” dos Correios, uns peixinhos, para secar no jirau da casa dos amigos que vieram de Capelinha, norte de Minas.

Na segunda-feira da Semana Santa, ele deitou-se junto com os irmãos e o sono não vinha nunca. Buscou o penico esmaltado debaixo da cama e tentou mijar, mas a urina não saia. Era medo puro. O suor escorria abundante naquela noite quente de fim de março, cheia de pernilongos. As horas passavam lentamente, anunciadas pelas batidas lúgubres do velho relógio da matriz. Ouvira contar, que na Lapinha, bairro sempre escuro e estranho, um baita de um lobisomem tinha encurralado um tal de Zé Maximino. O bichão só não o devorou, porque achou ele meio gasto. Palavras do próprio Maximino que viu piedade nos olhos do monstro. E olha que ele declarou isso tudo pro sergipano cabo Normando, bravo feito uma onça, e que não gostava de mentiras.

Como o sono não chegava, lembrou-se também das derradeiras palavras da varredeira de rua, Antoninha Gromogô, que dizia que quando morresse, continuaria varrendo as ruas da cidade para assombrar os moleques que dela estivessem zombando. E ele era um dos “tais”. E lá fora, um leve vento varria a rua levando lixo, batendo portas e uivava por entre as frestas da janela. Com tantos pensamentos apavorantes, ele cobriu a cabeça.

Era hoje! – pensou. Hoje, todas as almas do outro mundo, assombrações e capetas viriam em grupo para cobrar dele todas as dívidas, devidas ou não. E o tempo passando e nada do sono chegar. Começou então a armar uma chuva dos infernos, com raios e trovões e uma rajada de vento mais forte abriu a janela por sobre sua cabeça. Nesse momento ele sentiu-se desfalecer, mas a porta do quarto se abriu e a figura forte da mãe apareceu acendendo a luz, para calmamente fechar a janela. Ele implorou à mãe para dormir em seu quarto, mas foi em vão. Teve que ficar por ali mesmo entregue às vicissitudes daquela noite dantesca. Mal a mãe saiu do quarto, apagando a luz e fechando a porta, começou tudo de novo. Desta vez, chegou a hora da entrada em cena da mula sem cabeça. Ela trotou até a janela de seu quarto e alí ficou, ora relinchando, ora batendo a pata no passeio.

– Meu Deus! – pensou ele – Que foi que eu fiz com essa mula, para, agora, até ela se virar contra mim?

Ele não sabe precisar se passou por uma madorna, mas o dia finalmente começou a raiar com uma chuva fina e a “mula com cabeça de fogo” resolveu ir embora, lentamente. Mas, agora, já com uma coragem tirada não sei de onde, ele correu, abriu a porta do alpendre e ainda viu o burro da carroça da prefeitura que apanhava lixo, subindo o Beco de Sá Nati, em direção ao largo da Matriz. Concluiu ali, que ele estava lambendo um resto de sal deixado no passeio por João Gomes, que na época era ajudante no açougue de Joaquim Violeta, ao lado.

Assim foi minha infância, entre artes, medos, fantasmas e inseguranças. Mas que valeu, valeu! 

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