Publicado por: Dirceu Rabelo | 10/11/2013

OS CELTAS E O ESPIRITISMO

OS CELTAS E O ESPIRITISMO

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Os celtas e o espiritismo

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De todas as perguntas que me fazem sobre espiritismo, a mais desafiadora é aquela que quer saber se a nossa doutrina é de Deus. Penso em todas as respostas possíveis, incluindo a primeira pergunta de O Livro dos Espíritos, mas nessas horas sempre me lembro dos druidas: se Deus é tudo, o começo e o fim; é a natureza de todas as coisas; somos nós e tudo que existe no Universo; sim: o espiritismo é de Deus.

   Mas por que nós, os espíritas, nos interessamos pelos druidas?
Dependendo do interesse na busca do conhecimento, o druidismo, como todas as demais temáticas misteriosas do tempo histórico, pode assumir diversos significados para o investigador espírita: o médico pode se interessar pelas suas práticas curativas, o jurista pelas suas normas éticas, o sociólogo pela sua rica variedade de manifestações culturais no campo das crenças, dos valores e dos costumes. Da mesma forma, o investigador das artes gostaria de compreender melhor a estética dos seus símbolos ou da também misteriosa arquitetura de pedras.
   Como historiador, me interessaria facilmente por qualquer uma dessas possibilidades, mas como educador me chama particularmente atenção o caráter iniciático da escola druídica. Ser druida implicava numa série de ações e atitudes que estavam fora de cogitação para o homem celta comum. Era preciso ingressar num sistema espiritualmente seletivo. Ser “De Deus” e cultivar os Carvalhos Sagrados ia muito além de garantir a sobrevivência do corpo e proteger-se contra os ataques dos inimigos vivos.
   Eles se interessavam pelos mortos que não estavam mortos.
   O druida tinha uma visão de mundo diferenciada, um olhar elitizado que só uma educação especial poderia dar conta e garantir sua continuidade. Daí a escola, um ambiente especial, a necessidade de apropriar-se de conhecimentos incomuns, essenciais para preservar uma cultura que já era milenar no apogeu de sua existência social.
   Então, como um druida se tornava druida? Que conhecimentos eles dominavam e que uso eles faziam dessa ciência que, para a maioria, era oculta e secreta?
   Tal escola como os demais elementos antropológicos desses grupos, nos revelaria não somente a concepção de mundo ou a cosmogonia dos celtas, mas principalmente as conexões históricas com outras culturas e que poderiam explicar melhor as suas características e influências no tempo presente.
   Essa é a espinha dorsal deste curioso trabalho de pesquisa de Eugenio Lara. Ele quer saber como responder todas as perguntas que se fazem sobre esse tema, mas, sobretudo, quer explicar por que fazemos essas perguntas.
   Fazendo isso, ele pretende sair do lugar comum da curiosidade passiva e chegar ao ponto-chave da sua pesquisa.
   Existe alguma relação histórica entre espiritismo e celtismo?
   Essa é a principal questão que este ensaio levanta.
   Tal questão foi também uma das muitas que intrigou Allan Kardec nas suas reflexões sobre as raízes e múltiplas dimensões da Doutrina que ele sistematizou: o mundo dos espíritos que se abria no século 19 era o mesmo que era cultivado com grande naturalidade pelos gauleses e que era da esfera de domínio dos druidas? A técnica utilizada nas brincadeiras de mesas-girantes ou pelos médiuns para consultar os espíritos eram as mesmas utilizadas pelos sacerdotes druidas? A “roc” ou pedra falante dos gauleses era a mesma que apoiava a cesta de bico nas primeiras reuniões espíritas de Paris e em praticamente todas as grandes cidades do mundo naquela época?
   O druidismo é parte fundamental da história europeia pré-cristã, assim como o cristianismo foi no período subsequente ao domínio romano. Quando esse raciocínio é aplicado na história da França, o druidismo assume então um significado mais fundamental ainda; trata-se, pois, do elemento que, de certa forma, dá identidade às mais remotas experiências sociais dos franceses. Os gauleses, povo que mais se identifica com o perfil francês, tinha no druidismo a sua base ideológica e sua principal fonte de conhecimento. Queriam conhecer as coisas desse e do outro mundo. Não foi à-toa que os criadores de Asterix atribuíam ao seu sacerdote druida os poderes mais impressionantes para desafiar os invencíveis romanos.
   Se o espiritismo tivesse aparecido originalmente no Brasil, a mesma dúvida seria aplicada à visão de mundo da cultura animista, africana e indígena. Tanto é que, quando chega ao Brasil, o espiritismo foi imediatamente utilizado para dar nome aos fenômenos que aqui aconteciam há séculos. Mais ainda: em muitos cultos afroindígenas, a nomenclatura espírita foi institucionalizada, como forma de legitimar socialmente aquilo que na França era assunto da ciência e de filósofos. Quando se tornou uma ameaça ao clero, virou coisa socialmente baixa, de negros, índios e mestiços. Também na França, quando o espiritismo se estruturou como filosofia, deixando de ser brincadeira de mesa, passou então a ser visto como ameaça ao conhecimento das religiões dogmáticas. Os inimigos logo trataram de associá-lo ao druidismo mítico do imaginário popular: a religião pagã que fazia sacrifícios humanos e disseminava a loucura coletiva.
   Todos os anos milhares de turistas que visitam o cemitério de Père-Lachaise, em Paris, ficam intrigados ao perceber que, das centenas de túmulos construídos de forma tradicional, um se destaca de todos os demais. É uma construção de pedras, um típico dólmen fúnebre dos celtas. É o túmulo de Allan Kardec, o mais visitado daquele lugar e o que permanece constantemente ornamentado por flores. Alguns acham somente curioso. Outros tantos sabem que se trata de uma tradição celta. Poucos se dão conta de que o fundador do espiritismo adotou um pseudônimo que justifica aquela arquitetura tão singular. E pouquíssimos sabem as verdadeiras razões daquela estranha edificação e também o significado da frase que foi gravada na parte superior daquele dólmen. Estes últimos são os leitores deste ensaio. Querem respostas. Mais do que isso, querem saber se estão fazendo as perguntas que deveriam ser feitas. Como os druidas, são curiosos natos.

São de Deus.

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